A maldade é um vírus que habita a mente humana. Fruto do pecado original? Não há ambiente em que ela não medre. Está ali, às vezes escancarada, outras vezes sutilmente disfarçada. Mas pronta para entrar em ação, assim que surja uma oportunidade.
Não se pense que em ambientes qualificados pela erudição, ela desapareça. Pode ser até mais sofisticada. Aquela dúbia afirmação que tanto pode ser encarada como encômio, ou também como crítica. As frases geradoras de mal-entendidos. O esporte favorito dos maldosos que praticam esse exercício evidenciando sua erudição. Como se aquela cultura exibicionista pudesse compensar o fel que espargem com generosidade, para ferir uma legião. Será que é um campeonato para constatar quantas pessoas podem ser atingidas com a dureza de uma palavra cruel?
Coelho Neto era um intelectual festejado e não poupava seus desafetos. Um deles é Viriato Correia. Sobre ele, comentava: - “Sabe a coisa mais ordinária que o Maranhão já produziu? Foi esse moleque, esse Viriato...Ignorante e pretensioso! Sabe que disse ele de mim, em casa de uma família amiga? Disse que a minha glória assentava num monte de bagaço!
E o interlocutor protestou: a frase não podia ser de Viriato Correia. “Era pérfida, injusta, mas imaginosa. Estava acima da capacidade e do espírito de Viriato. Isso, em primeiro lugar. Em segundo: quando foi que Viriato já entrou numa casa de família?”.
Eram fórmulas elegantes de se atacar alguém que “caísse em desgraça” perante alguns acadêmicos. Até quando elogiavam, deixavam algo de amargo sem destinatário identificado, mas em direção a uma categoria. Como quando Humberto de Campos elogia o etnólogo Roquete Pinto, o único candidato à Academia cuja eleição, até então, despertara seu interesse. E justificava: “A Academia não pode ficar nas mãos dos poetas que para ela estão entrando, simples trovadores sem cultura, sem o risco de transformar-se, dentro de pouco tempo, em simples grêmio literário como há dezenas de outros pelo interior do Brasil. É minha opinião, aliás, que os poetas que não são senão poetas, e se ressentem da falta de cultura, só devem entrar para a Academia por direito de antiguidade. A cultura, na vida de letras, vale por tempo de campanha”.
Pílulas maldosas, profusamente espalhadas desde 1897 até nossos dias. Não há como evitá-las. É a velha história: é melhor perder o amigo do que a piada cruel. E nem sempre engraçada...
*José Renato Nalini é Reitor da UNIREGISTRAL, docente da Pós-graduação da UNINOVE e Secretário-Executivo das Mudanças Climáticas de São Paulo.