José Renato Nalini

O cidadão Washington Luís

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Washington Luís Pereira de Souza foi um Presidente da República nas primeiras décadas do século XX e enfrentou crises que acabaram por destituí-lo do cargo. Sua vida foi esmiuçada em vários volumes por Célio Salomão Debes, integrante da Academia Paulista de Letras e aficionado dessa vida singular. Mas como é que ele era visto de longe, por membros da Academia Brasileira de Letras?
 
Um testemunho interessante é o de Humberto de Campos. Ele confessa não o conhecer intimamente, pois nunca foi ao Catete após sua posse. Tinha notícias, “no entanto, da sua simpatia literária, simpatia que manifestou fazendo-se representar, quando Presidente do Estado de São Paulo”, à posse de Humberto na Academia Brasileira de Letras, em 1920. 
 
A descrição a seguir reflete a opinião de Humberto de Campos sobre Washington Luís: “Homem de, mais ou menos, sessenta anos, é o Sr. Washington Luís, fisicamente, uma figura imponente, a mais imponente, talvez, que já passou pela Presidência, depois de Deodoro. Alto, compleição robusta, patenteia nos gestos provocantes e desenvoltos o indivíduo que se consagra à ginástica e aos exercícios violentos. Cabelos brancos, principalmente na região temporal, não foi atingido pela calvície, usando um topete agressivo e um cavanhaque tão agressivo como o topete. Ilumina-lhe o rosto, permanentemente, um sorriso, que não é, contudo, nem da modéstia, nem da bondade, mas o do gladiador invencido que anda à cata de inimigos para derrotar. De assombrosa resistência, ama os prazeres da mesa, como Lucullo e os do leito, como César. Apaixonado pelas viagens terrestres, faz excursões quase diárias de automóvel, algumas de centenas de quilômetros, e não se fatiga. É, em suma, um espartano feito monarca em Sibaris”.
 
A menção ao automóvel enfatiza o lema de Washington Luís: “governar é abrir estradas”. Mas a descrição continua: “Intelectualmente, parece que a sua inteligência corresponde ao físico. Sem as delicadezas facultadas ao homem pela cultura apurada, examina as questões políticas e os problemas administrativos de modo superficial, procurando resolvê-los pelo processo mais simples e rápido. Não se detém em análises profundas, indagando a causa ou perscrutando o efeito das coisas: delibera e age. Não dispensa, diz-se, consideração aos que o procuram e, ainda menos, aos que o cercam, revelando-se, em tudo, voluntarioso e superior. Rei que é, hoje, do Brasil, reina e governa. Esse feitio tem sido, conta-se, o segredo da sua carreira vitoriosa. Onde há escravos, que se conformem em ser escravos, deve haver um senhor. Ele é o senhor”.
Tal diagnóstico de uma personalidade complexa, pode contribuir para a análise das vicissitudes por que passou Washington Luís, obrigado a exilar-se, quando Getúlio não concordou com a eleição de Júlio Prestes, episódio por demais conhecido da História republicana do Brasil. 
 
*José Renato Nalini é Reitor da UNIREGISTRAL, docente da Pós-graduação da UNINOVE e Secretário-Executivo das Mudanças Climáticas de São Paulo.   

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