José Renato Nalini

Criticar parceiros

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Exercer a crítica é missão complexa. Principalmente quando o criticado é um parceiro de armas. Ou seja, um escritor criticar outro. Um poeta analisar a obra de alguém que também verseja. O músico a tecer comentários sobre a performance do maestro. E por aí vai...

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Um crítico impiedoso foi Humberto de Campos, muito dinâmico e ativo no início de funcionamento da Academia Brasileira de Letras. Não poupava chibatadas em seus companheiros imortais.

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Em relação a Hermes Fontes, por exemplo, eis o que ele fala do livro “Apoteoses”. Primeiro, observa que tem elogiado o autor, “sem leitura meditada. É, na edição que tenho à mão, um livro desopilante, um manual de frases feitas, entremeado de extravagância grotesca. A estrela d’alva, por exigência da rima, obtém “uma salva geral de palmas”; o Sol é “um cidadão qualquer”; o Mar “parece um verdadeiro louco”, a Noite é “a embaixatriz de um grande reino oculto”, e, ainda, “o dia às avessas”. E por aí além. Aqui e ali, porém, aparece um surto feliz, que redime o autor da maioria das suas infantilidades. É, todavia, um livro de arte que se não pode ler sem sorrir...”.

Humberto costuma atribuir a outros as frases com as quais exprime o que ele realmente pensa. Assim, ao elogiar João Ribeiro, por suas críticas ponderadas e bem articuladas, diz que o crítico chegou a confidenciar a ele: “A maior dificuldade, quando se faz crítica literária, consiste em escrever sobre os poetas. É uma gente perigosa, à qual não se pode dizer verdades. E eu não encontro um poeta que me agrade. Se eu pudesse dizer o que penso, aconselharia que se aposentasse o Bilac e o Alberto Oliveira com todas as vantagens do posto, mas que se os aposentasse... São grandes poetas, sim, mas para o seu tempo, para um tempo que já passou... É preciso aposentá-los. É preciso...”

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Muito mais grave a acusação que faz a Gilka Machado, que escreve obras perniciosas, mas que “é mais vítima do marido do que do sangue do avô ou do pai. Ele é um tipo repugnante e, pelo que sei, é por exigência sua que a mulher escreve aqueles versos escandalosos. Ele quer que a Gilka apareça de qualquer modo, para aparecer com ela e tirar disso proveitos de empregos e de relações”. Haja arsenal para acabar com os colegas!

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