Academias congregam egos notáveis. São pessoas que se destacaram principalmente na literatura, mas não só. Hoje, aceita-se protagonistas de outras áreas, para premiar a fabulosa biodiversidade do pensamento pátrio. Mas é comum que os “imortais” tenham melindres resultantes de aguçadíssima sensibilidade. A disputa por espaço, por menção na mídia, por mera citação em solenidades, chega a acabrunhar os mais frágeis.
Conta-se que Luís Murat, ou Luís Norton Barreto Murat, (1861-1929), o fundador da cadeira 1 da Academia Brasileira de Letras, ficou muito amuado quando leu uma nota no jornal “O Imparcial”, sobre Vicente de Carvalho, Vicente Augusto de Carvalho, (1866-1924), santista que chegou a ser magistrado e também foi poeta. É que nesse texto eram citados vários poetas brasileiros e Murat não figurava.
Ressentido, procurou Coelho Neto, Henrique Maximiano Coelho Neto, (1864-1934), para que este descobrisse quem era o autor do artigo. Se fora Emílio de Meneses, ou Emílio Nunes Correia de Meneses (1866-1918), de quem desconfiava, Murat não o receberia na Academia Brasileira de Letras.
Coelho Neto o tranquilizou, pois sabia que Luís Murat vê, em tudo, no menor esquecimento, nessas pequenas omissões, o propósito de magoá-lo, de hostilizá-lo, de diminuí-lo. Embora um grande poeta, não assimilava que estava longe de ser popular. Seu nome não é o primeiro que vem à lembrança a todo momento, principalmente, como dizia Coelho Neto, “quando ele próprio se exila, se retrai, como um lobo, fugindo ao convívio de todos que podem fazê-lo lembrado”. Isso era inexplicável em um homem com o talento de Luís Murat. Era doentio.
Só que essa característica é atemporal. Ela existia há mais de um século e continua a existir. Talvez até mais exacerbada, porque as redes sociais – essa dependência igualmente patológica – faz com que alguns se vangloriem de conquistar milhões de seguidores. Milhões de seguidores, é certo. Mas quantos desses podem ser chamados “amigos”?
*José Renato Nalini é Reitor da UNIREGISTRAL, docente da Pós-graduação da UNINOVE e Secretário-Executivo das Mudanças Climáticas de São Paulo.