José Renato Nalini

Capistrano & Bilac

Google Gemini/Imagem Gerada por IA

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É importante para as novas gerações, saberem que o Brasil já contou com literatos que foram, à sua época, cultuados como os atuais influencers. A diferença é que eles tinham conteúdo. A obra era resultado de aprofundados estudos, de reflexão e de maturação das ideias. Já a produção dos tik-toks e vias análogas é o impulso espontâneo de erupções que pouco têm a ver com erudição. 
 
Capistrano de Abreu, por exemplo, era venerador dos vultos antigos. Estudava tanto a vida deles, que nutria a sensação de viver entre elas e no seu tempo. Uma dessas fixações afetivas era Frei Vicente do Salvador. Mais do que admiração, era uma espécie de religião. Fora responsável por editar a “História do Brasil” escrita por Frei Vicente. Anotara-a, estudara-a e amava o autor como a um amigo vivo.
 
Um dia surgiu muito triste e cabisbaixo. Qual a desgraça que o atingira? E ele responde ao amigo que se preocupa com seu abatimento: - “Você não imagina como tenho andado aborrecido! Sabe o que eu descobri? Não só descobri, como apurei e verifiquei que a mãe de Frei
 
Vicente foi uma pessoa viciada, desonesta, uma pessoa de vida escandalosa!”. 
Era difícil para ele desvincular a obra e seu autor da origem presumivelmente espúria. Do lodo também podem brotar lírios!
 
Já Olavo Bilac, nada obstante a qualidade poética, bebia demais. Descia para a cidade – Rio de Janeiro – ordinariamente, entre as onze horas e o meio-dia. Trazia a sua crônica diária para “A Notícia”. E começava a beber e assim prosseguia, até alta noite ou, às vezes, até alta madrugada.
 
Numa noite, 4 de novembro de 1904, ele estava bem alterado. Caminhando a partir do Largo da Lapa, ele e alguns amigos de bebedeira passaram diante do Catete. O palácio presidencial estava em regime de plantão, porque se aguardava o ataque da Escola Militar, que obedecia ao comando de Lauro Sodré. Inteirado pela guarda dos acontecimentos, Bilac, que havia bebido mais do que nunca, gritou: 
 
- “Eu não posso ir para casa numa situação dessas! Vou fazer companhia a meu amigo Rodrigues Alves!”.
 
Identificou-se, teve acesso ao Catete e ali ficou até o dia seguinte. É que o paulista Rodrigues Alves, então Presidente da República, devotava a Bilac a maior estima. Consta até que ele namorava uma filha do Presidente, que faria o maior gosto no casamento. Mas isso não chegou a acontecer. 
 
*José Renato Nalini é Reitor da UNIREGISTRAL, docente da Pós-graduação da UNINOVE e Secretário-Executivo das Mudanças Climáticas de São Paulo.

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