José Renato Nalini

Afeições políticas

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No território da política partidária brasileira, diz-se não existir afeição. Só interesses. E se a História da República Federativa desta nação chamada Brasil for detidamente examinada, ver-se-á não estar longe da verdade quem afirma que as ligações se fazem com intuito muito específico e ao sabor das conveniências. Quando surge qualquer sentimento afetivo, é por acaso.Não faz parte do jogo.
 
Permaneçamos no território dos mortos, que não podem reclamar. A sucessão do paulista Presidente Rodrigues Alves, em 1910, foi tumultuada. Como têm sido todas as sucessões, principalmente agora, com a polarização que exaspera o eleitor. Vota-se contra um dos candidatos, sem a convicção plena de que o alvo da escolha seja a melhor para o País.
 
Pois àquela altura, davam as cartas políticos paulistas e mineiros, no acordão que se fez para a alternância deles na condução da República, então entre a infância e a adolescência.
 
Uma das figuras proeminentes era Carlos Peixoto Filho, que encarregou seu amigo Elói de Sousa, de sondar Pinheiro Machado, um gaúcho também influente. Queria que ele sondasse o gaúcho sobre uma candidatura mineira, mas que não dissesse quem é que lhe pedira essa consulta.
 
Isso porque Carlos Peixoto não suportava Afonso Pena e tudo fazia para que ele não chegasse à Presidência.
Elói de Sousa foi se desincumbir da missão e procurou Pinheiro Machado. Este olhou firme e indagou seco: - “Quem te mandou aqui?”. Elói titubeou. Mas Pinheiro Machado foi incisivo: - “Se queres entrar nesse assunto, tens de dizer primeiro quem te mandou aqui falar comigo!”.
 
Elói era calouro e acabou contando a verdade. Pinheiro Machado perguntou quem é que Peixoto queria que fosse presidente. O candidato dos sonhos de Peixoto era Chico Sales. 
Pinheiro Machado disse que precisaria conversar com Rui Barbosa. Adiantou que não seria fácil emplacar outro que não fosse Afonso Pena, pois Rodrigues Alves nutria grande simpatia por ele. E no dia seguinte, disse a Elói de Sousa que “o Rui está de acordo. E está de acordo, principalmente, por tratar-se de um republicano histórico”.
 
Peixoto mandou Wenceslau Brás a Minas, para obter o assentimento do ungido: Chico Sales. Mas este se recusou: o seu candidato era Afonso Pena. E assim foi. Peixoto se viu forçado a aceitar Pena, mas nunca o suportou. E Pena só o suportava porque precisava dele.
 
Essas rusgas e hipocrisias, felizmente, desapareceram da cena política tupiniquim. 
 
*José Renato Nalini é Reitor da UNIREGISTRAL, docente da Pós-graduação da UNINOVE e Secretário-Executivo das Mudanças Climáticas de São Paulo.  

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