Engenharia do Cinema
Brasileiro estreia em Hollywood com o longa
Sony Pictures/Divulgação
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Quando anunciaram uma nova produção de "Anaconda", há cerca de um ano, muitas pessoas se questionaram o que exatamente seria o projeto, uma vez que ele seria estrelado pelos comediantes Paul Rudd e Jack Black.
Ao ficar claro que se tratava de uma comédia aos moldes de "Trovão Tropical", a atenção dos cinéfilos, principalmente daqueles que cresceram nos anos 90 e 2000,começou a ser despertada. Entretanto, tudo mudou para os brasileiros com o anúncio de que esse longa seria a estreia de Selton Mello em uma produção estadunidense.
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Diferente da produção original estrelada por Jennifer Lopez e Ice Cube, o longa de Tom Gormican ("O Peso do Talento") não deve, em momento algum, ser levado a sério, principalmente por se tratar de uma premissa que envolve uma cobra gigante devoradora de pessoas.
Após avaliarem que a situação de suas vidas não está das melhores, o grupo de amigos Doug (Black), Ronald (Rudd), Kenny (Steve Zahn) e Claire (Thandiwe Newton) resolve gravar uma refilmagem do clássico "Anaconda" no meio da Floresta Amazônica. O que eles não imaginavam era a série de problemas que enfrentariam no local.
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O roteiro de Gormican e Kevin Etten procura explorar a metalinguagem ao estabelecer o grupo central em diversas situações que remetem não apenas ao cenário da sociedade atual, como também à própria indústria cinematográfica, principalmente no que diz respeito às produções de filmes B.
O texto ainda estabelece uma sutil homenagem ao quão caótica foi a produção de "Apocalypse Now" para Francis Ford Coppola, representado aqui indiretamente por Doug, que leva seu elenco e equipe para uma floresta para filmar um longa. Isso se reflete tanto nos imprevistos que o fazem alterar os planos das gravações quanto nas constantes incertezas diárias.
Isso é perceptível por conta do arco de Ronald e Doug: enquanto o primeiro interpreta um ator fracassado em busca de uma chance (embora seja um tanto canastrão), o segundo tenta se tornar um novo Michael Bay, apesar de trabalhar filmando casamentos.
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A química entre eles funciona perfeitamente, principalmente quando dividem a cena com Zahn. O ator consegue roubar a cena com momentos hilários, especialmente ao lidar com o vício em drogas e álcool de seu personagem.
Contudo, essa combinação torna-se ainda melhor quando dividem a cena com o próprio Selton Mello. Nitidamente levando a persona de Chicó (seu personagem em "O Auto da Compadecida") para a trama, ele não apenas se encaixa na premissa do longa, como rouba a cena e gera ótimos improvisos com os colegas.
Infelizmente, o mesmo não se pode dizer de Thandiwe Newton e Daniela Melchior, que estão tão apagadas quanto deslocadas. Melchior, inclusive, por ser de origem portuguesa, teve seus diálogos em português dublados, o que causa uma estranheza enorme.
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Além disso, existem alguns outros descuidos em relação à retratação do Brasil, como o barco utilizado possuir um letreiro chamado "The Benedita".
Já nas cenas que envolvem suspense e ação, o resultado funciona conforme a expectativa do público. Se o propósito for ver algo sério, "à la Steven Spielberg", o espectador irá se chatear. Agora, se o foco for deixar o senso crítico na bomboniere e ver algo trash, o entretenimento é garantido.
"Anaconda" é mais um sinal positivo de que ainda é possível fazer boas comédias para o cinema explorando a metalinguagem. Talvez, porém, ainda seja preciso "desenhar" para o grande público quais são os verdadeiros propósitos de um enredo deste nível.
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Obs: O filme tem duas cenas pós-créditos bem divertidas, e tecnicamente, importantes.
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