Engenharia do Cinema
Longa é uma 'nova versão' da obra de Emily Brontë
Warner Bros/Divulgação
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Adaptada inúmeras vezes para o cinema, a obra literária de Emily Brontë se passa durante o século XIX, mas consegue ser atemporal por conta da temática que engloba o relacionamento conturbado entre Catherine e Heathcliff.
Entretanto, com a crescente mania de Hollywood de mudar o significado de algumas histórias para transpor nelas a linha de pensamento e até mesmo a ideologia de seus envolvidos, a nova versão de "O Morro dos Ventos Uivantes" parece ter sido tirada de um sonho mais pervertido da cineasta Emerald Fennell (vencedora do Oscar por "Bela Vingança").
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Se por um lado temos uma história que mescla paixão e vingança, sob o olhar sexualizado de Fennell, ela transforma um enforcamento em um álibi sexual. Ao abrir o filme, pressupõe-se, em uma "tela escura", que os gemidos ouvidos são do ato em si, e não de um prisioneiro clamando em seus últimos segundos de vida.
É neste cenário que conhecemos a jovem Catherine, que encontra o órfão rebelde Heathcliff, logo adotado por seu pai (Martin Clunes). Alguns anos se passam e, na vida adulta (agora interpretados por Margot Robbie e Jacob Elordi), uma paixão começa a nascer entre eles. Entretanto, as escolhas da protagonista acabam transformando a situação em caos.
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De antemão, deixarei claro que esta é uma obra que se divide entre o "ame ou odeie". Além de a metade final apresentar as alterações mais drásticas em relação ao material original, se o pensamento comparativo falar alto demais, torna-se impossível apreciar o trabalho de Fennell, que não deixa de ser bem executado.
Mesmo que o teor da paixão e do sexo falem alto, embora não caia no estilo de "50 Tons de Cinza" (como o próprio material promocional vende), é perceptível que a diretora queria não apenas extravasar seus sentimentos em relação à obra, mas também homenagear sutilmente clássicos como "E o Vento Levou" (vide algumas sequências visualmente idênticas).
Apelando ao máximo para a tonalidade vermelha em diversos ambientes, o longa apresenta figurino e design de produção muito bem executados. Além dos enquadramentos que sempre enaltecem Catherine e Heathcliff, o roteiro deixa claro algo explícito sobre o casal: ambos não são boas pessoas e, literalmente, se merecem por isso.
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Se, por um lado, ela jamais quer deixar de viver na alta sociedade, ele consegue manipular violentamente uma das personagens do longa apenas para chamar a atenção de Catherine. Mesmo que haja excelentes atuações e uma boa química entre a dupla, uma análise simples define que estamos falando de um casal que, muito provavelmente, atrai sérias consequências no futuro.
Em contrapartida, há ótimas atuações e concepções por parte de personagens como Nelly Dean (Hong Chau) e Isabella (Alison Oliver), que funcionam como um contraponto na relação entre os protagonistas.
"O Morro dos Ventos Uivantes" termina da mesma forma que começa, pois, mesmo sendo bem executado, divide o público em relação às suas abordagens.
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