O esporte imita a vida ou a vida imita o esporte? Eu diria que os dois, e é justamente por isso que grandes ídolos do esporte geram tanto fascínio sobre boa parte do público.
Grandes personalidades do esporte nos colocam diante de praticamente tudo que existe na vida: talento, trabalho duro, sorte, injustiça, fracasso, superação, envelhecimento, pressão e reinvenção. Não é nenhum exagero dizer que uma partida de tênis, esporte que agora tem uma coluna aqui no Diário do Litoral, parece uma metáfora perfeita da nossa existência.
Durante duas décadas, Rafael Nadal, Novak Djokovic e Roger Federer transformaram o impossível em algo visível e fizeram milhões de fãs de tênis pelo mundo se perguntarem: “Até onde esses caras podem chegar?”. Parecia impossível alguém vencer 24 Grand Slams. Djokovic, obcecado pelo sucesso e dono de uma mentalidade vencedora, foi lá e fez. Seria absolutamente surreal um mesmo tenista triunfar 14 vezes em Roland Garros. Nadal, resiliente e lutador, foi lá e fez. Poucos acreditavam que fosse possível unir, com tanta perfeição, beleza nos golpes e eficiência nos resultados. O elegante Roger Federer foi lá e fez. Ao romperem limites tantas vezes diante dos nossos olhos, mudaram a percepção coletiva muitas vezes do que parecia possível e abriram caminhos para as gerações seguintes, como os brilhantes Sinner, Alcaraz e, por que não, João Fonseca.
Do trio mágico dos veteranos do tênis, apenas um segue em atividade, Djokovic, mas não com o vigor físico de outrora. Ninguém vence o tempo e é inevitável que, cedo ou tarde, o atleta passe a lutar contra o próprio corpo.
Reservado durante boa parte de sua carreira, Nadal abriu pela primeira vez seus bastidores em uma série espetacular lançada recentemente pela Netflix. Escancarou ali seus conflitos internos, suas dores físicas, a rotina familiar atrapalhada pela alta performance e suas inseguranças. Dividida em quatro episódios, a série encantou uma parte dos fãs de tênis por mostrar Nadal em momentos de vulnerabilidade. Entre 2023 e 2024, o espanhol relutou em aceitar a possibilidade de não conseguir mais fazer aquilo que fez a vida inteira com tanta competência.
Sofreu calado com o pé, o joelho e tantas outras partes do corpo. Castigou sua cabeça com a disciplina imposta pelo tio e técnico, Toni Nadal, desde a infância. Herói para alguns, vilão para outros, Toni ensinou o sobrinho a tolerar o desconforto (ainda que alguns limites parecessem inaceitáveis) e a lutar pelos pontos em quadra como se a vida dependesse daquilo. Mesmo aos 38 anos, o multimilionário e consagrado Nadal acreditava que havia ainda mais um torneio para disputar, uma recuperação física para fazer, mais um retorno possível aos melhores dias em quadra. Mentalmente, virou um escravo da própria genialidade que construiu em torno de si.
Dizem que um atleta profissional morre duas vezes. A “primeira” morte de Nadal pode ter sido sentenciada por Xisca Perelló, sua esposa, que diz na série: “Existe uma vida inteira esperando por você fora do tênis”. Talvez ele tenha entendido ali que a vida não terminava quando o tênis profissional acabasse.
No esporte, nos negócios e na vida, muita gente sonha com as recompensas: dinheiro, títulos, reconhecimento e sucesso. O problema é que quase ninguém se apaixona pelo preço que precisa ser pago para chegar lá.
