Por que ninguém larga o tênis?

Duas raquetes de tênis e uma bola de tênis no meio delas

Ömer Derinyar/Pexels

Dia desses, a esposa de um tenista iniciante da Liga Santista de Tênis, ainda um pouco cética com a nova obsessão do marido pelo esporte, reclamava que ele havia se tornado monotemático: só pensava em tênis. As horas livres passaram a ser gastas na quadra, diante da televisão assistindo a partidas que podem ultrapassar cinco horas de duração, conversando sobre tênis com os novos parceiros de jogo ou pesquisando cordas, raquetes e equipamentos.

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“É um vício maior que o futebol!”, concluiu ela, acrescentando que o marido havia deixado de lado até os jogos do Santos para acompanhar torneios de tênis – recomendação que, convenhamos, talvez pudesse ser seguida por todos aqueles que já não suportam os incontáveis deslizes do Peixe, como é o caso deste colunista.

O fato é que o tênis ativa uma combinação muito rara de fatores psicológicos, o que ajuda a explicar a euforia em torno da modalidade nos últimos anos. Esse fenômeno fica especialmente evidente em adultos que começam a jogar.

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O primeiro motivo é que a evolução é muito perceptível. Pequenos progressos técnicos geram uma enorme sensação de recompensa. “Semana passada eu nem conseguia sacar. Na aula de hoje, acertei seis seguidos”, me mandou por mensagem um amigo que começou a treinar há apenas dois meses.

É justamente por ser tecnicamente difícil que o tênis se torna tão envolvente. Sempre existe um golpe para aperfeiçoar, um adversário diferente para enfrentar, uma categoria acima para disputar. O esporte cria um ciclo permanente de aprendizado, no qual a sensação de evolução dificilmente desaparece.

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Empolgados com essas descobertas, muitos praticantes percebem que disputar torneios dá ainda mais sentido à jornada. Passam a treinar com um objetivo concreto, estabelecem metas e encontram novos desafios.

Rapidamente, o iniciante também descobre que o tênis vai muito além de bater bola. Ele entra em grupos de WhatsApp, conhece parceiros, acompanha torneios profissionais, aprende sobre equipamentos e passa a fazer parte de uma comunidade. E quando uma atividade passa a fazer parte da identidade de alguém, o engajamento cresce exponencialmente.

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Foi exatamente isso que aconteceu comigo. O tênis entrou na minha vida na mesma época em que Gustavo Kuerten escrevia os capítulos mais bonitos de sua carreira. Eu tinha nove anos quando vi Guga derrotar os lendários americanos Pete Sampras e Andre Agassi, em sequência, na Masters Cup de 2000, em Lisboa, para terminar o ano como número 1 do mundo. Na cerimônia de premiação, enrolado na bandeira do Brasil, emocionou o público ao dizer: “Hoje, além de ser o dia mais feliz da minha vida, é o primeiro dia em que vou poder falar em português e todo mundo vai me entender”. Foi aplaudido de pé em Portugal e, alguns meses depois, fez com que eu quisesse dar as minhas primeiras raquetadas. Entre idas e vindas, o tênis me acompanhou pela vida até se transformar, já depois dos 30 anos, em um negócio.

A boa notícia é que o tênis brasileiro vive um momento que não experimentava desde a era Guga – e isso tende a levar cada vez mais gente às quadras. O principal responsável por esse otimismo é, sem dúvida, João Fonseca. Mas ele não está sozinho. Há uma geração talentosa se formando, com nomes como Guto Miguel, Nauhany Silva (a Naná) e Victoria Barros despontando no cenário internacional.
Quem descobre o esporte dificilmente consegue ficar indiferente. E talvez seja justamente essa a melhor notícia para o futuro do tênis brasileiro.