Óleo de navios mata 94 mil pessoas/ano, mas decisão política pode reduzir mortes em 56%

Segundo estudo, a queima desse óleo pesado contribui para a formação de partículas suspensas no ar, com diâmetros de até 2,5 micrômetros

Um estudo realizado pelo Massachussets Institute of Technology (MIT) e pela Universidade de Ciência e Tecnologia de Hong Kong, publicado recentemente na revista Environmental Research Letters, chegou à conclusão que o combustível dos navios provocava anualmente 94 mil mortes prematuras ao redor do Planeta na década passada. Segundo os cientistas, a queima desse óleo pesado contribui para a formação de partículas suspensas no ar, com diâmetros de até 2,5 micrômetros (PM 2,5). E essas micropartículas formadas por óxido de nitrogênio (NOx) e dióxido de enxofre (SO2) aumentam a incidência de doenças respiratórias e cardiovasculares, além de ampliarem os casos de câncer de pulmão, especialmente em áreas costeiras como Santos e Guarujá.

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Porém, políticas públicas mais restritivas poderiam reduzir o número de mortes prematuras causadas pelo transporte marítimo. O problema é que eventuais mudanças em prol de uma navegação menos poluente esbarram nos interesses econômicos de armadores e afretadores de navios.

E esse dilema influencia formuladores de políticas públicas, especialmente em países como o Brasil onde a transição energética em linha com o Acordo de Paris está atrasada e onde questões ambientais ainda são vistas por parcelas da sociedade como coisa de ‘ecochatos’.

Um dos caminhos para reduzir as mortes prematuras é a mudança na composição química do combustível. E a via legal para reduzir o lançamento na atmosfera de NOx e SO2, que também contribuem para o aquecimento do Planeta, seria a ampliação das ECAs, áreas onde só podem navegar embarcações menos poluentes.

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Atualmente, o Mar Báltico e o Mar do Norte, além das costas do Canadá e dos Estados Unidos, incluindo o Havaí, já são classificadas como ECAs. Nessas regiões, navios que excedam o limite de emissões de óxido de nitrogênio e dióxido de enxofre já não podem mais navegar.

Em 2025, navios que excedam o limite de NOx e SO2 já não poderão mais navegar pelo Mar Mediterrâneo. América Central, China, Coreia do Sul, Austrália e Japão também preveem a criação de ECAs nos litorais do Atlântico e do Pacífico.

Um exemplo bem-sucedido de política pública internacional foi imposto pela International Maritime Organization. Em vigência há três anos, a IMO 2020 limitou o teor de enxofre no combustível dos navios em 0,5%, reduzindo consequentemente as concentrações de PM 2,5 nas áreas costeiras. Segundo o Programa do MIT sobre Ciência e Política de Mudança Global, isoladamente a IMO 2020 já é capaz de evitar 20 mil óbitos por ano.

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Porém, na avaliação do MIT, mais limitações no teor de enxofre no combuistível dos navios produziria apenas uma ligeira queda na mortalidade precoce. Reduzir o teor de enxofre de 0,5% para 0,1% como acontece nas ECAs evitaria cinco mil mortes relacionadas ao transporte marítimo a cada 12 meses.

Mais eficiente seria restringir severamente a emissão de NOx, o que evitaria 33 mil mortes/ano. As emissões de óxido de nitrogênio são reguladas pela Convenção Internacional para a Prevenção da Poluição por Navios (MARPOL). De acordo com o Anexo VI da MARPOL, foram estabelecidos três limites de emissão de NOx (IMO Tier I, IMO Tier II e IMO Tier III).

Esse rigor na emissão de NOx exige mortores de última geração, com duas tecnologias disponíveis atualmente.

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Ciente da transição energética em curso e do aumento das exigências para navegar no primeiro mundo, proprietários e arrendatários de navios têm se mobilizado rumo à evolução tecnológica. Só um dos fabricantes de soluções energéticas anunciou que recebeu no ano passado mais de dois mil pedidos de motores compatíveis com a regra IMO Tier III.

Filosofia do campo:

“Ó mar salgado, quanto do seu sal são lágrimas de Portugal/Por te cruzarmos, quantas mães choraram, quantos filhos em vão rezaram!/Quantas noivas ficaram por casar/Para que fosses nosso, ó mar”, Fernando Pessoa (1888/1935), jornalista e escritor português.