Um apóstolo da emancipação

A escravidão é uma vergonhosa mancha na História da Humanidade. Entretanto, durou como chaga durante quase quatrocentos anos no Brasil. As sequelas, nós as sentimos até hoje. Mas é preciso resgatar páginas bonitas de brasileiros que sempre repudiaram essa prática.

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Além de Luiz Gama, Joaquim Nabuco e tantos outros, pode ser mencionado o Visconde de Serra Branca, Domingos Borges de Barros, cuja filha, Luísa Margarida Portugal de Barros, viria a se tornar a famosa Condessa de Barral.

Para o Cavaleiro de Saint Georges, que escreveu o texto “A Condessa de Barral e de Pedra-Branca”, na Revista Mensal do Mundo Latino, tomo 23, janeiro-abril de 1891, o Visconde de Pedra Branca foi o “primeiro apóstolo da emancipação dos escravos no Brasil”.

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Vivia no meio de seus negros como no seio de uma grande família. No Engenho São Pedro, no Recôncavo Baiano, só existiam três brancos: o patrão, o doutor e o capelão. Era uma propriedade rural bem afastada. Distava seis horas de marcha de qualquer povoação e, no inverno, as pseudo-estradas – imagine-se o que eram, se hoje ainda as rodovias brasileiras do interior são intransitáveis – tornavam-se tão lamacentas, que se gastava mais de um dia de viagem.

Pedra-Branca era um território entregue aos escravos. Todavia, o convívio entre o Visconde e sua gente, ainda que submissa ao jugo da escravidão, era o mais cordial e fraterno que se possa imaginar.

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Sabia-se o senhor do engenho, tão estimado por eles que, durante uma terrível guerra servil que ensanguentou a Província da Bahia, nunca pensou em deixar a plantação. Nem consentiu que se fechassem durante a noite as portas da casa grande.

Reunira seus negros e lhes dissera: – “Meus filhos, os escravos sublevaram-se em toda a Província. Vocês sabiam?”. – “Sim, nós sabíamos, patrão!”. – “E o que vocês decidiram fazer?”. – “Nós resolvemos ficar quietos aqui e montar guarda em volta da casa para que não se toque um fio de cabelo de sua cabeça. Há já diversas noites que velamos por destacamentos para sua segurança e organizamos patrulhas para vigiar os arredores; somente, nós nada lhe dissemos, para não o preocupar”.

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É uma página bonita, descrita por um francês, aparentemente insuspeito. Podem ter existido outros exemplos de convívio humano entre servo e senhor. Não se pode acreditar que todos fossem maus e cruéis. Seria desacreditar, plenamente, no projeto humano.