Quando se discute se o STF tem ou não de ter um Código de Ética, os que se detiveram a estudar essa ciência do comportamento moral dos seres humanos em sociedade só podem concluir que a moral não é absoluta. Ela é menos do que relativa. Ela é complacente, como se aprendia nas aulas de Medicina Legal, quando assim se qualificava uma espécie de hímen.
É que a ética varia de acordo com os interesses. Surreal o CNJ concluir que familiares podem advogar em tribunais integrados por parentes. Ou até por mais do que parentes, como é o caso de marido e mulher.
Mas isso não acontece agora e não é privativo da cultura tupiniquim.
No livro “Introdução à Sociologia”, de Peter Berger, há um capítulo bem interessante: “Como trapacear e se manter ético ao mesmo tempo”.
Isso é o que ocorre na política, onde, além de protestarem pela postura essencialmente democrática, os profissionais dessa atividade partidária se consideram éticos. Absolutamente éticos.
Uma historinha serve para ilustrar como funciona o raciocínio desses varões de Plutarco, desses Catões da República.
Em uma cidade dos Estados Unidos havia um templo batista e essa confissão é muito rigorosa em princípios morais. Não muito longe da igreja, havia uma fábrica de cerveja. Para os batistas, era a vanguarda de Satanás.
O pastor não poupava a cervejaria em suas pregações.
Ocorre que, por razões pouco esclarecidas, a fábrica de cervejas fez uma doação de 150 mil dólares para a Igreja. Os mais ortodoxos ficaram irados. Era dinheiro do demônio e não poderia ser aceito.
Porém, a Igreja precisava de reformas. A quantia custearia uma pintura nova. Ou o conserto do órgão. Jardins mais bonitos. Salão social para festas. E assim é que a resistência foi se arrefecendo.
Reunida em assembleia, chegou a comunidade a uma decisão democrática. Lavrou-se no registro de atas: “A Igreja Batista Bethel resolve aceitar a oferta de 150 mil dólares feita pela cervejaria, na firme convicção de que Satanás ficará furioso quando souber que o seu dinheiro vai ser usado para a glória de Deus”.
É assim que funciona a ética para aqueles que só a conhecem do discurso, nunca da mais remota prática.
*José Renato Nalini é Reitor da UNIREGISTRAL, docente da Pós-graduação da UNINOVE e Secretário-Executivo das Mudanças Climáticas de São Paulo.
