Justiça Climática Já!

Foto: Unsplash/Karsten Würth

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O tema ambiental é o mais urgente e o mais sério. O único real perigo que ronda a humanidade é o aquecimento global, que causa mudanças climáticas terríveis. Proteger o ambiente é a questão existencial do século 21, o derradeiro, se não houver imediata conversão dos “donos da terra”.

Alguns temas ambientais chegam à Justiça convencional, que os trata como se fossem questões interindividuais. Esquece-se de que a vítima dos desastres ecológicos é uma comunidade difusa de seres vivos, muitos dos quais ainda não nasceram. O constituinte de 1988 teve a coragem de erigir à condição de sujeito de direitos aquele que é ainda nascituro. Bela proclamação, prática deficiente.

Mais do que uma “Justiça Ambiental”, o mundo precisa de uma “Justiça Climática”. Ela existe e já se mostrou competente. É operacionalizada por uma ONG – Organização Não Governamental chamada ClientEarth. Esta entidade se tornou referência mundial em processos judiciais que cobram medidas para enfrentar as mudanças climáticas.

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Já atua em mais de cinquenta países, tem duzentas e cinquenta pessoas a trabalhar e inovou em casos contra governos, quais o do Reino Unido e grandes empresas, como Shell e Danone.

Um dos casos recentes foi apresentado contra a Cargill e na esfera administrativa, a OCDE – Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico. Como requerente a ONG ClientEarth e a ONG brasileira Terra de Direitos. A alegação é que a empresa desmata, devasta ecossistemas e viola direitos humanos.

Sabe-se que muita empresa realiza “greenwashing”, ou seja, rotula-se amiga do ambiente e o devasta. Enquanto a ciência e o mundo civilizado bradam contra os combustíveis fósseis, países atrasados se propõem a prospectar petróleo na foz de um dos maiores rios do planeta.

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Algo inédito, a ClientEarth moveu contra a Shell um processo que visa seus diretores, a responsabilidade pessoal dele, num plano de desconsideração da pessoa jurídica. Antes disso, a ONG adquiriu ações da petroleira e, na condição de acionista, pode questionar o desrespeito aos interesses ambientais. A Shell não estaria a gerenciar o risco climático e, com isso, comprometendo – a longo prazo – o interesse dos que apostaram nela, tornando-se titulares de ações.

A ONG acredita na lei como ferramenta viável para promover mudança sistêmica. A ClientEarth defende legislações corretas, como a da União Europeia, que exigirá que tudo o que venha a ser vendido na Europa não esteja ligada a desmatamento. Além disso, existe o treino e capacitação de advogados e promotores, para que saibam usar a lei para defender o meio ambiente. Finalmente, os litígios estratégicos contra governos e corporações, servem para lembra-los de seus compromissos ambientais.

É até salutar que a ONG acione a Cargill, grande exportadora de soja, para que ela não venha a ver proibidos os seus produtos na União Europeia, diante de uma sábia e saudável normatização. Não adiantar dizer que isso é discriminatório contra o Brasil. Discriminatório contra a vida natural é a cegueira do governo em relação à devastação de todos os biomas, principalmente a Amazônia, a nefasta lentidão em regular o mercado oficial dos créditos de carbono, aceitar a continuidade do genocídio indígena e a exploração de suas terras por criminosos apátridas e usar do ambiente apenas como retórica, não como prática consciente.

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As empresas responsáveis têm de aprimorar seus processos de “due diligence”, auditoria para rastrear seus produtos e impedir que os defensores da natureza sejam exterminados, como já aconteceu com Chico Mendes, Irmã Dorothy Stang e continua a ocorrer com tanta frequência. O Brasil é um dos campeões do mundo em matar ambientalistas.

O uso da Justiça convencional para proteger a natureza tem um outro efeito indireto: ajuda a conscientizar a população de que a sua vida e a própria existência das futuras gerações está ameaçada pelo comportamento negligente, omisso ou até conivente dos governos e grandes corporações, que tudo extraem da natureza e nada repõem no desfalque perpetrado.

Responsabilizar o governo por omissão ou negligência é também recado para quem queira administrar a coisa pública e não se porta como verdadeiro cuidador deste único habitat que nos é dado como lar terrestre e cuja contaminação o conduz ao caos e à morte. Juízo, governantes!

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Justiça Climática já, brada a consciência ecológica universal, que repercute no Brasil também, um pária ambiental que está demorando a se converter.

*José Renato Nalini é Reitor da UNIREGISTRAL, docente da Pós-graduação da UNINOVE e Secretário-Geral da ACADEMIA PAULISTA DE LETRAS.