Herança revolucionária

Herança revolucionária

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​A Revolução de 1930, que não permitiu que o eleito democraticamente assumisse o mais elevado cargo no executivo nacional, foi um espetáculo deprimente de adesão aos vencedores. 

​Enquanto Washington Luís, que não conseguiu exercer o seu mandato até final, estava preso e destinado ao exílio, Júlio Prestes que fora recebido em vibrante aclamação quando chegara ao Rio, também colhia o fel da ingratidão.

​Quem vivia aqueles tempos também lamentava o retrocesso democrático. Em seu “Diário Secreto”, Humberto de Campos registrava em 6.2.1931: “A nova política brasileira caracteriza-se pela afirmação da ignorância presunçosa. Dificilmente se poderiam reunir tantas mediocridades sem a menor noção da própria responsabilidade. Verdadeiro ajuntamento de boêmios apaixonados pela violência, ou puro ajuntamento de conspiradores de baixa origem que tivessem jurado guerra ao bom senso e à inteligência”.

​Como se não bastasse, continuava:

​“Vale a pena ler os jornais do tempo, especialmente os mais amigos do governo, para ter uma ideia da hora que o Brasil atravessa sob a mão de meia dúzia de rapazes saídos das mesas de jogo, dos cabarés, das fazendas de gado e das prisões militares para as altas funções governativas”. 

​E no dia seguinte, 7.2.1931, tem a coragem de anotar:

​“Getúlio Vargas – um bobo risonho, de pernas curtas e covinhas na face, cuja maior alegria consiste em ouvir dizer que é esperto”.

​Esse padrão de político não desapareceu. Ao contrário. Mas, no Brasil, ao vencedor todas as glórias. Ronald de Carvalho obteve nomeação para a Secretaria da Embaixada do Brasil em Paris. Ao despedir-se, não economizou elogios aos homens que foram levados ao poder pela Revolução. Em entrevista para “O Jornal”, louva entusiasticamente os nomes que antes fustigava. Postura infelizmente comum e atemporal. Ocorre em todos os lugares, já não surpreendendo quem conhece os meandros da mente humana. 

​Revoluções surpreendem. Antes de pensar em subverter a ordem, os pretensos revolucionários deveriam estudar melhor a História da Revolução Francesa de 1789. Ela começou por devorar seus próprios artífices, isto é, os seus filhos. Deixam uma herança discutível, para não dizer maldita…

*José Renato Nalini é Reitor da UNIREGISTRAL, docente da Pós-graduação da UNINOVE e Secretário-Executivo das Mudanças Climáticas de São Paulo.