Como você se avalia?

Você não desconhece a realidade do trabalho nestes tempos duros: há ocupações à procura de gente qualificada. Mas gente qualificada é algo raro num país que fez da educação um adestramento. Obrigou crianças e jovens a decorarem informações desnecessárias, quando uma busca na internet responde a qualquer procura sobre dados.

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A escola brasileira não ensina a pensar. Drama que começa no ensino fundamental, prossegue no ensino médio – daí a fuga dos jovens de uma escola chata, sem graça e sem atrativo – e prossegue na Universidade. Aqui, o iletrado não tem dificuldade em obter um diploma. O trágico é: o que fará desse diploma inútil?

Por isso, aqueles que têm discernimento e sabem distinguir a insuficiência da escolaridade formal, buscam, por si sós, descobrir o caminho para a subsistência digna. Podem, por exemplo, recorrer a uma autoavaliação, a parir do método Keirsey, inventado por David Keirsey. Ele detectou quatro temperamentos básicos: artesão, guardião, idealista e racional. Há muitos outros métodos, inclusive utilizados pelos headhunters, recrutadores especializados em alinhar os interesses da empresa com os profissionais do mercado. Tática exitosa, que leva a iniciativa privada a não ter problemas para a seleção de seus quadros, enquanto o poder público insiste na surrada, anacrônica e superada realização de concursos que só avaliam a capacidade mnemônica do candidato.

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O Estado brasileiro precisa de um choque de gestão. Está totalmente necrosado na sua tendência de estatizar tudo aquilo que funciona, mas que ao passar para a gestão estatal, gangrena, se putrefaz, fica inteiramente dominado pela corrupção e debilita, ainda mais, o combalido Erário tupiniquim.

Não passou pela cabeça dos administradores públicos estudar o que a iniciativa privada, que não tem por si o Tesouro Nacional, faz em termos de seleção de seus quadros funcionais. Há uma ciência denominada “human capital management”, que é a gestão de talentos ou de capital humano. Ela inclui tanto a capacidade de identificação de talentos quanto o desenvolvimento de políticas que ajudem a reter esses funcionários de desempenho acima da média.

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Enquanto isso, o governo paga consultorias, fala em meritocracia, mas mantém quadros atulhados de funcionários desalentados, sem proceder a reciclagem, sem pensar em estratégias como um “ano sabático” para os professores que já não conseguem encarar uma classe de alunos desmotivados, que debocham deles, não se interessam por anda e ainda costumam ser violentos.

O governo também desconhece o que seja KPI, a sigla em inglês para key performance indicator, um indicador de desempenho. Há métricas científicas para mensurar o sucesso dos projetos e também para avaliar os seus colaboradores.

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Há quantas décadas sabe-se que o aprendizado é algo permanente? Há quanto tempo se fala em “educação continuada”, sem que isso repercuta em qualquer setor da Administração Pública?

Na empresa privada, o lifelong learning é uma prática rotineira. A formação pessoal e também a profissional prosseguem de modo voluntário ao longo da vida. Os trabalhadores inteligentes sabem que é fundamental estar continuamente a se aprimorar. Mas a inteligência de que se trata é a emocional, a capacidade de reconhecer e de administrar as próprias emoções, além de entender as emoções dos demais envolvidos na mesma situação. Quanto mais inteligência emocional um profissional tiver, maiores serão as chances de ele conseguir atingir o nível de sucesso a que se propôs.

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Na verdade, quem precisa de autoavaliação é o governo brasileiro. No momento em que o ambiente – seu maior patrimônio – é destruído, em que se constata que mais de vinte milhões de brasileiros passam fome diariamente, muitos outros milhões sofrem de insegurança alimentar, quinze milhões estão desempregados, como é que o governo avalia a sua performance, em todos os níveis?

Faz sentido destinar quase seis milhões para eleições com a excrescência de partidos que só pensam em empolgar cargos no executivo e no legislativo, em procurar o autoenriquecimento e se esquecem das necessidades da população?

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Uma educação de qualidade teria formado gerações insuscetíveis de serem tão espoliadas como têm sido, na escolha de políticos profissionais que se esqueceram de seu compromisso com o bem comum e só cuidam de eleição e da matriz da pestilência chamada reeleição.

Alguém acredita que o governo um dia se disporá a uma autoavaliação?

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*José Renato Nalini é Reitor da UNIREGISTRAL, docente da Pós-graduação da UNINOVE e Presidente da ACADEMIA PAULISTA DE LETRAS – 2021-2022.