Ensino Mutante, Escola Volúvel

Diego Monsalvo é filósofo, psicanalista e escritor

Lá se entra e se escolhe, viver para ser preso ou se construir para a liberdade das fugas

Parece-me ponto pacífico que, partindo de uma leitura histórica, o surgimento da escola tal qual a nossa organização de ensino ocidental (ou sua nova e atual confi­guração), date da época renascentista e Moderna, séculos XVI-XVII, e sua mudança de prioridades no que diz respeito à leitura do novo mundo se fundamente em re­novado antropocentrismo humanista.

Com a perspectiva de entendimento de mundo am­pliada após as análises filosóficas e científicas que permi­tiram às novas colonizações outras consequentes neces­sidades de produção e mercado, fizeram-se necessárias alterações político-estruturais nas metrópoles europeias, com destaque para o dinamismo de mudança na cultura francesa, uma das maiores influências à formação moderna de nossas escolas.

Sob esta perspectiva de recorte histórico que cito aqui, a esco­la, ou melhor, a cultura escolar, como nos lembra o filósofo da educação André Petitat, vista como mantenedora e reprodutora da tradição vigente de uma sociedade, foi gradativamente sofrendo modificações sig­nificativas com base na ideia dos papéis e representações desempenhados por professores e estabelecimentos de ensino no que diz respeito à finalidade e/ou projeções esperadas pelas elites políticas e econômicas vigentes.

Nesse sentido, não seria de todo errado afirmar que, num mundo cercado e tomado por gaiolas, a escola é uma gaiola também, mas uma das únicas com as portas abertas. Lá se entra e se escolhe, viver para ser preso ou se construir para a liberdade das fugas.

Grandes pensadores viveram experiências contraditórias dentro da escola. Isaac Newton desistiu, Patativa do Assaré também, Paulo Freire resistiu, Albert Camus também… Enfim, a escola tem um grande poder de abrir e fechar oportunidades para toda uma geração, seja no processo libertação e humanização do amanhã ou contribuindo para o aprofundamento da barbárie sistêmica nessas faixas de terra que habitamos.

Mas de onde vem essa escola, esse modelo de cultura escolar ocidental (ou acidental) que nos coube, frequentar?

Pois bem, trocando em miúdos e sintetizando demais o processo, eis que temos o seguinte:

1º Modelo. Escolas de comportamento: buscava-se formar, com inspiração na ideia de etiqueta dos ho­mens das cortes, um modelo social de cortesão. Mesmo os burgueses, num primeiro momento de desenvolvimento de classe ainda incipiente, adotavam tal ensino a fim de fazerem parte das práticas e dos bons costumes da nobreza ainda reinante;

2º Modelo. Escolástica-humanista: após mudanças para adequação aos novos ditames sociais, princi­palmente enfrentando os movimentos de contra­dição da Reforma religiosa, a cultura eclesiástica (católi­ca e, principalmente, protestante), ainda de tradição escolástica, se abre ao hu­manismo grego apregoado na renascença de forma dispersa e difusa por entre pensadores independentes que se tornarão, futuramente, os exemplos aos novos mestres da educação;

3º Modelo. Humanista-escolástica: seguiam propostas vindas de livres pensadores dos países baixos e escandinavos de maioria protestante, acresci­das de uma visão corajosa e inovadora de filósofos críticos das religiões e seus domínios, além de, também, estar presente entre as ordens religiosas católicas, notadamente os jesuítas e os dominicanos, mesmo que com suas claras contradições internas à época, e, principalmente, em suas leituras mais radicais e potentes de significados conceituais de pensadores clássicos greco-romanos, após o contato com as grandes traduções e tratados de filósofos e cientistas ára­bes;

4º Modelo. Escolas-Colégios: o ato de ler, acompanhado de uma vida escolar mais integrada à sociedade, vai se tornando elemento primordial à forma­ção do indivíduo, ficando mais acessível aos novos educandos, filhos dessa modernidade já aburguesada. Permitia-se, assim, pouco a pouco, a discussão da educação moral recebida, a segmentação por níveis de estudo e idade e o convívio com uma edu­cação ampliada e garantidora de sta­tus social. Os colégios, antigos alojamentos, viram cenário para um ambiente escolar ativo;

5º Modelo. A língua como ‘nova’ gramática formativa: o vernáculo passa a ser visto como um meio de sociali­zação necessário à formação da cultura e de­senvolvimento de identidades nacionais, daí muitos Estados tomarem para si o manteni­mento dos primeiros abrigos escolares fora dos muros e domínio, exclusivo, dos eclesiásticos.

É de se ressaltar que, pelo fato de ainda não haver uma escola universal, pública, integradora de liberdades in­dividuais e instigadora de grandes causas coletivas, tan­to a leitura do processo de libertação do indivíduo das amarras da ideologia dominante num dado sistema polí­tico-educacional quanto a preocupação em manter certa tradição de saberes, tal como observamos no desenrolar ulterior da escola, comporão um binômio escolar perene.

Neste estágio de desenvolvimento da escola já pós-renas­centista, fica evidente, portanto, o entendimento de que o currículo escolar é a base para o mantenimento ou transformação do saber pretendido por um povo, por uma cultura, uma vez que Estado, Igrejas e sociedade civil tentarão dele se apropriar como elemento de forma­ção ideológica de primeira grandeza. Assim, o currículo educacional, esse conjunto de matérias, saberes e métodos de ensino e aprendizagem, passa a ser disputado como mais um importantís­simo meio ideológico à classe que se pretende dominante e como um futuro foco de resistência às classes dominadas.

Diante deste ce­nário, é importante que se tenha em mente desde já que assim como Francis Bacon um dia afirmou que saber é poder, hoje, nas sociedades contemporâneas, currículo é poder e ensinar e aprender podem sempre formar uma libertação em mão dupla: educador e educando protagonizando a construção do tempo futuro dentro ou fora da gaiola.

Diego Monsalvo é filósofo, psicanalista e escritor.