Doc, Ted e Pix nas escolas

Há algum tempo, quando da retomada presencial das aulas do ano de 2022, escrevi sobre as “três pestes” que se fariam presentes em nossas escolas.

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Tentei demonstrar que para todo aquele que trabalha com educação, o ano de 2022 seria o mais difícil das últimas décadas. Ainda mais porque partiríamos de uma volta sem plano algum de retomada nas escolas e institutos, principalmente, das esferas públicas. Nas escolas particulares, e é importante que se diga que existe um universo de diferenças, estilos e demandas nessas instituições, que puderam oferecer diversas ferramentas online para a redução de danos ainda maiores, também teríamos dificuldades enormes nessa volta ao corpo a corpo.

Sobre as três pestes, portanto, disse eu que seriam o ISOLAMENTO (nossos alunos trariam infinitas marcas dos períodos mais críticos da pandemia, desde famílias que se descobriram que eram só um amontoado de gente que viviam sob o mesmo teto até a dificuldade para refazer ou criar novos laços no mundo não-virtual); a DEFASAGEM ESCOLAR (o mais notório dos efeitos do período domiciliar da pandemia, onde nossos alunos e seus familiares viram na prática que a escola e seus educadores também ensinam como estudar e não só o que estudar) e a VIOLÊNCIA (uma bomba que no Brazil com Z já era, além de tudo, estimulada pelas maiores vozes da republiqueta do ódio, e está mais presente na escola com a máscara da autossabotagem, do bullying e da briga física. Nossos alunos extravasando as insatisfações e as indecisões por meio de um corpo que se desenvolve, reflete com dificuldade e clama por amparo e afeto).

Dito isso, relembrado o artigo de outrora, chamo a atenção para as três transferências que chegaram ainda mais fortes, pois nunca deixaram de existir, com as famílias e suas supostas cobranças por qualidade de ensino aos seus filhos.

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Primeiro, o DOC, aquela transferência no “atacado” que a família faz à escola, no sentido de mostrar aos educadores e sua gestão pedagógica que se preocupam com os seus rebentos, mas espera do colégio a educação plena (de corpo, alma e “Deus me livre”) dos seus meninos e meninas. É uma transferência do tipo que diz não querer dizer o que a escola deve fazer pelos seus filhos, mas deixa implícito que é fiscal de acusação se algo sair como não quer. É uma transação em formato DOC, pois demora, mas uma hora vem nos devorar a todos que não corresponderem aos seus desejos. É característica de famílias que descontam na escola a frustração de não conseguirem colaborar integralmente na educação dos filhos.

Segundo, a TED, aquela transferência no “varejo” que a família faz à escola, no sentido de mostrar aos educadores e sua gestão pedagógica que dia a dia cobrarão atitudes cada vez mais rígidas aos filhos dos outros enquanto negociam vantagens para os seus pequeninos. É uma transferência do tipo que garante que não quer fazer a defesa do filho, mas, os colegas e educadores o perseguem o tempo inteiro. É uma transação em formato TED, pois vem a curto prazo, muitas vezes no mesmo dia em que seu santo menino fofocou alguma invencionice que virou verdade nos ouvidos daqueles que já premeditavam acusar. É característica de famílias que levam ao contexto escolar a necessidade de demonstrar o que em suas casas não acontece,  ou seja, que são os melhores e mais presentes pais (e educadores) a defender a cria num ambiente hostil, chamado sala de aula e hora do intervalo.

Terceiro, o PIX, aquela transferência direta, diária e acusatória que a família faz à escola, no sentido de mostrar até às tintas das paredes, que se o seu filho não for doutrinado como a família deseja, acusará, paradoxalmente, a escola de doutrinação. É uma transação em formato PIX, pois vem imediatamente e recheada de raiva e necessidade de “sangue” e “justiça com as próprias mãos”. É característica de famílias que alienadas às responsabilidades básicas que lhes competem,  elege inimigos novos para justificar o de sempre, intimidação e desafeto para o preenchimento de toda a sua falta de empatia e, vejam só, educação.

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Por fim, devo dizer que sustento essas ideias não para ironizar esses “tipos familiares” (que são uma minoria barulhenta) e inocentar práticas educativas ruins e péssimas quando essas ocorrerem, mas para alertar a todas e todos envolvidos com a educação que se não nos entendermos e criarmos uma via de mão dupla de responsabilidades e competências diferentes, faremos da sequência da retomada das aulas presenciais um octógono de vale tudo, onde só restará às escolas separar brigas e conter as armas.

É o que queremos? É mesmo o que queremos?