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Filmes como 'O Cheiro do Ralo' e 'Heleno' puseram a empresa produtora RT Features no mapa, e agora ela aparece associada à realização de 'Frances Ha'. O longa estreia na sexta-feira, dia 23, nos cinemas brasileiros. É interpretado por Greta Gerwig, de 'A Casa do Diabo', e tem direção de Noah Baumbach. Você sabe quem é - o autor de 'A Lula e a Baleia', que tanta comoção causou em 2005. Trabalhando em estreita colaboração com a atriz - que coassina os diálogos com ele - e filmando em rigoroso preto e branco (como 'Heleno'), Baumbach não faz propriamente um filme, no sentido tradicional, mas tenta colocar na tela o que os norte-americanos chamam de 'piece of life'.
A vida como ela é - existem momentos em que o espectador tem a impressão de estar sendo invasivo, ao penetrar na intimidade da protagonista, Frances. A garota é bailarina, ou quer ser. Mas a carreira não anda, parece emperrada como a própria vida de Frances. Ela começa o filme dividindo o teto com uma amiga. Entendem-se - ou melhor, completam-se com tanta intensidade que a própria Frances, lá pelas tantas, observa que são como duas lésbicas casadas há muito tempo, mas numa união sem sexo.
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Ocorre que a amiga sempre sonhou em morar em determinado lugar e a oportunidade surgiu, mas ela tem de dividir o apartamento com outra. A própria Frances passa a morar com dois rapazes. Ela estranha, a princípio, mas termina por se adaptar, o que não significa que o processo não seja marcado por indecisões, por idas e vindas. E, durante todo o tempo, Frances tenta resguardar a amizade, que, para ela, é o mais importante. O filme passa-se no universo da dança, mas se fosse outra a área de interesse artístico e profissional a realidade de Frances talvez não fosse diferente por isso.
O mais curioso é que também estreia na sexta outro filme - o documentário brasileiro 'A Alma da Gente', de Helena Solberg e David Meyer, em que a dança também desempenha um papel decisivo. Não só os gêneros são distintos, uma ficção, um documentário. O meio socioeconômico também diverge e, na produção 100% nacional - posto que 'Frances Ha' é uma parceria internacional -, Helena e Meyer acompanham jovens que participaram de um projeto de dança do coreógrafo Ivaldo Bertazzo na Maré, no Rio. A dança abre uma janela na vida dos jovens favelados, leva-os a sonhar alto. O filme acompanha os jovens num antes e depois, quando eles estão sonhando e depois que os sonhos se chocam com a realidade. 'A Alma da Gente' é belo - e duro. Prepare-se para o que poderá ser um choque.
'Frances Ha' trata ficcionalmente muitos temas que 'A Alma da Gente' aborda como ficção. São olhares cruzados. Uma ficção nas bordas do documentário, um documentário no limite da ficção. O nova-iorquino (do Brooklyn) Baumbach, de 43 anos, vem do que se pode definir como um meio intelectual. O pai, romancista e crítico de cinema, a mãe, crítica de música. Noah estreou jovem, aos 26 anos, com 'Kicking & Screaming', em 1995. O filme é sobre dois amigos que se formam na universidade, mas se recusam a tocar a vida. A amizade, as indecisões também estão em 'Frances Ha'. O segundo longa, 'Mr. Jealousy', dois anos mais tarde, é sobre um cara tão ciumento que vai fazer análise para tentar entender seu sentimento de posse em relação à namorada. Ecos de 'Mr. Jealousy' também estão no longa que estreia esta semana.
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Mas foi 'A Lula e a Baleia' que garantiu a projeção de Baumbach. O filme inspira-se na infância e nos efeitos do divórcio dos pais na vida dos filhos. 'Frances Ha' meio que sintetiza a experiência humana e artística de Baumbach - as indecisões da (i)maturidade, a dependência, as dores da separação. Um aspecto curioso - e não negligenciável - é que seu 'O Solteirão', de 2010, com Ben Stiller, sobre dois irmãos (e outra história de amizade problemática), é um dos filmes de cabeceira do escritor Bret Easton Ellis, de 'Psicopata Americano'.
Baumbach é certamente um diretor talentoso, embora às vezes passe a impressão de ainda não dominar nem a mídia (o cinema) nem o material (o próprio roteiro). Existem cenas supérfluas que poderiam ser suprimidas para uma narrativa mais concisa, sem prejuízo do entendimento dos personagens nem da ação. A falta de mestria não deve desanimar ninguém, e muito menos impedir que as boas virtudes do filme sejam reconhecidas. O que aproxima Frances e Sophie (a amiga) é também o que as separa. Frances dá a impressão de andar à deriva na vida. Sophie tem uma meta e resolve investir nela, mesmo sem estar certa do resultado.
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É a marca de Baumbach. Ele é atraído por personagens complicados e o que lhe interessa é justamente abordar as dificuldades da vida contemporânea. No limite, 'Frances Ha' é sobre o que fazer quando seus sonhos não se realizam. Ainda aqui, o contraponto com 'A Alma da Gente' é visceral. É como se Baumbach e Solberg & Meyer estivessem querendo dizer que a vida não tem scripts prontos e que é preciso 'improvisar'. Baumbach transforma improvisação em método de trabalho, ou assim parece. A vida como ela é. Imagens que parecem roubadas. 'Frances Ha' é uma boa parceria internacional da RT. Mostra que esse tipo de procedimento pode ser aplicado ao cinema autoral, no momento em que a Total Entertainment também se torna parceira do argentino Daniel Burman - e o novo longa dele, 'A Sorte em Suas Mãos' será outra das estreias de sexta.