Túmulos de anônimos ganham devoção popular e são reverenciados em SP

O culto às almas no Brasil tem forte origem católica, desde os tempos coloniais, mas com o tempo se misturou também com devoções espíritas e de religiões de origem africana

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01 NOV 2018Por Folhapress18h40
Túmulos de anônimos vêm ganhando a devoção popular em São PauloTúmulos de anônimos vêm ganhando a devoção popular em São PauloFoto: Divulgação/Fotos Públicas

Há 18 anos, Rosemere Alencar, hoje com 42 anos, estava grávida e recebeu a notícia de que a sua primeira filha não vingaria. Os médicos tiveram que retirar a criança ainda em formação de seu ventre e disseram que ela não sobreviveria por muitos dias.

Rosemere, que então trabalhava havia um ano como jardineira no cemitério da Vila Alpina, resolveu apelar à crença popular que se criou diante do túmulo de 13 vítimas não reconhecidas do incêndio do edifício Joelma, ocorrido em 1974 no centro de São Paulo.

Dizia a tradição que pedidos feitos àquelas vítimas eram realizados. Seja por intervenção transcendental ou pelo sucesso da medicina (ou uma mistura de ambos, como acredita Rosemere), a filha da jardineira, Luzia, sobreviveu e hoje cursa faculdade de arquitetura.

"Desde então, eu prometi que cuidaria dos túmulos das 13 almas do Joelma todos os domingos. Nunca falhei", diz ela, ao lado dos túmulos cheios de faixas e placas de mármore em agradecimento a graças realizadas a outros devotos.

No local, todos os dias, pessoas acendem velas e deixam faixas e flores em agradecimento. Há também quem, próximo aos túmulos, derrame um pouco de água (numa simbólica tentativa de aplacar as dores de queimadura das vítimas) ou um pouco de leite (para amenizar intoxicações).

O culto às almas no Brasil tem forte origem católica, desde os tempos coloniais, mas com o tempo se misturou também com devoções espíritas e de religiões de origem africana, que cultuam a ancestralidade.

Segundo o pesquisador Fábio Mariano Borges, professor da ESPM (Escola Superior de Propaganda e Marketing), os túmulos das 13 vítimas do Joelma, no cemitério Vila Alpina, é apenas um dos muitos pontos de cemitérios paulistanos que atraem devotos de santos populares supostamente milagreiros.
Borges prepara um livro com os relatos dessas manifestações religiosas.

"Grande parte dos casos é de túmulos de pessoas simples, desconhecidas, mas que por alguma razão sua morte foi revestida de mistério. Nem sempre se sabe pelos registros históricos a real história desses personagens, mas a fé popular se responsabiliza por criar suas próprias narrativas. Assim, o mistério alimenta as histórias de milagres realizados", explica.

No caso das vítimas do Joelma, o mistério reside na identidade até hoje incerta da tragédia que deixou quase 200 mortos.

Já no cemitério da Consolação, a morte misteriosa de Maria Judith de Barros também atraiu devotos.
Conta-se que a mulher, muito pobre, morreu de tanto apanhar do marido. A história não é confirmada em registros oficiais. Seja como for, ao longo dos anos, seu túmulo simples virou destino de pessoas que pediam soluções a problemas de relacionamento e compra da casa própria, por exemplo.

Mas a maior "especialidade" de Maria Judith seria a de ajudar estudantes a passarem no vestibular. Nas mais de 200 placas fixadas em seu túmulo, estão agradecimentos de novos universitários, por exemplo, nos cursos de engenharia, na USP,  e de odontologia, na Unesp.

Beatriz Tamamoto, 21, mandou fixar uma das placas de agradecimento depois de entrar em medicina veterinária na Universidade Federal do Paraná, em 2017. "Eu soube da história da Maria Judith por uma professora. Eu já tinha prestado vestibular uma vez e não consegui passar. Achei que não faria mal pedir ajuda [à santa popular] e deu certo."

Na última segunda-feira (29), a que antecede o Enem (o exame nacional que serve de entrada para diversas universidades), cinco vestibulandos passeavam pelo cemitério da Consolação. O grupo estava mais interessado nas personalidades históricas sepultadas ali, como a Marquesa de Santos, Mário de Andrade e Luís Gama.

Mesmo sem acreditar muito nos poderes de Maria Judith, um dos estudantes, Nathan Bertagna, 18, que quer prestar vestibular para física, levou os amigos até o túmulo da milagreira. "Eu já tinha ouvido falar que as pessoas vem aqui e agradecem, se passam no vestibular. Não sei se dá sorte, acho que é mais um incentivo pessoal para que o próprio estudante se dedique mais."

A alguns metros do túmulo de Maria Judith, outro ponto de devoção é o túmulo do menino Antoninho da Rocha Marmo, talvez um dos milagreiros mais famosos da cidade. Em 1947, uma reportagem da Folha da Noite (jornal editado pelo Grupo Folha) já tratava Antoninho como um santinho consagrado pelos paulistanos.

O garoto, que era muito religioso, morreu num surto de gripe espanhola em 1930, aos 12 anos.
Sobre o túmulo de granito preto, está uma estátua em tamanho natural de um menino com uma bíblia na mão. Atrás da estátua, uma parede com uma imagem de Cristo e uma cruz.

Todo o túmulo e a cruz são cobertas de pequenas placas de agradecimentos a pedidos alcançados: o fim do vício pelo cigarro, a cura de um familiar e uma nova carreira como aeromoça, entre outras.

Sobre o túmulo há ainda muitas flores, que são constantemente trocadas por visitantes. O Dia de Finados e o Dia das Crianças são os mais movimentados diante do túmulo de Antoninho da Rocha Marmo.

Essas duas datas também são as mais movimentadas no túmulo da menina Débora, no cemitério da Vila Formosa. A criança de 5 anos, que teria sido vítima de um crime bárbaro, em 1983, tem uma quadra inteira reservada só a ela, no bastante cheio cemitério da zona leste da capital.

O Serviço Funerário de São Paulo, vinculado à prefeitura, lista ainda outros túmulos supostamente milagreiros pela cidade. Entre eles o de um morador de rua, sepultado no cemitério de Santo Amaro, e o menino Guga, no cemitério do Araçá.

Fábio Borges cita ainda santos populares em cemitérios de Brasília, Recife, São Leopoldo (RS), além das paulistas Araraquara e Bauru. "É um fenômeno muito comum no Brasil e uma tradição que vai se perpetuar. Somos um país que, infelizmente, não faltam tragédias, o que deve continuar alimentando esse tipo de manifestação de fé", comenta Borges.