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Projeto avalia como hábitos de praia podem reduzir poluição marinha

Indicadores internacionais mostram que cerca de 80% do lixo marinho tem origem no ambiente terrestre

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24 JAN 2020Por Folhapress14h02
Estudo buscou compreender o que as pessoas levam de casa para passar o dia na praiaFoto: Nair Bueno/DL

Espetar palitos de sorvete, espetinhos de madeira, canudinhos e bitucas na areia, porque, supostamente, vão se decompor. Deixar restos de frutas e alimentos para trás sem a menor cerimônia, porque são orgânicos e "somem com o tempo". Juntar garrafas, copos, embalagens, guardanapos e outros trecos para depois jogar fora e depois esquecer de jogar.

São hábitos comuns de banhistas. Que emporcalham as praias. E seguem para poluir o mar. Indicadores internacionais mostram que cerca de 80% do lixo marinho tem origem no ambiente terrestre.

Esses hábitos listados acima foram detectados por uma análise comportamental em praias de Santos, em São Paulo, nos meses de novembro e dezembro de 2019. O estudo buscou compreender o que as pessoas levam de casa para passar o dia na praia, o que compram em barracas, como usam esses materiais e como os descartam.

Os resultados serviram para embasar uma segunda parte do projeto Lixo Fora D'Água, de combate às fontes de poluição marinha por resíduos sólidos, realizado na praia de Santos (SP), com apoio da Agência de Proteção Ambiental da Suécia, da Secretaria de Meio Ambiente de Santos e realizado pela Abrelpe, associação das empresas de limpeza urbana.

A partir deste sábado (25), começa a abordagem direta para testar soluções possíveis por um tempo determinado e como expandi-las. É a Operação Areia Limpa, que soma melhor oferta de locais adequados para receber lixo, materiais menos poluentes e alteração de padrões de comportamento e consumo no espaço público.

Duas barracas, uma na praia do Gonzaga e do Embaré, terão mesas com lixeiras, taças e copos retornáveis, bituqueiras individuais de bambu, canudos compostáveis que serão separados e levados para compostagem e carrinhos coletores de 100 litros para limpeza frequente ao longo do dia. Placas sinalizadoras e um cardápio com informações sobre descarte e sobre a operação ficarão disponíveis para os frequentadores.

Além desses equipamentos, agentes ambientais vão passar um mês atuando para esclarecer banhistas da necessidade de recolher e destinar corretamente o lixo que eles levam e geram na praia.

Até o Carnaval, a adesão de frequentadores e os resultados na quantidade de lixo e no descarte serão monitorados. No final da fase piloto, um relatório propositivo para a prefeitura ampliar para todas as barracas, apontando especificações necessárias. Entre as especificações, estarão, por exemplo, qual o espaçamento adequado para as lixeiras específicas.
Para implantar, a prefeitura precisará de verba e regulamentação. "O relatório final será propositivo. E temos de mostrar os resultados positivos também para os comerciantes", diz Carlos Silva Filho, diretor presidente da Abrelpe.

O estudo já havia detectado as três fontes de vazamento de lixo naquela região: as comunidades nas áreas de palafitas, os canais de drenagem que atravessam a malha urbana e a orla da praia em sua faixa de areia. Para as áreas de palafitas, com ocupações irregulares, onde não chegam os serviços públicos, o problema é de grande complexidade e não há um diagnóstico conclusivo. Para os canais de drenagem, a proposta apontada para a prefeitura local foi a construção de ecobarreiras.

Para a orla, foram analisados os dois fluxos: o lixo que a maré traz e o lixo que os banhistas levam. O lixo que a maré traz já é recolhido pelos serviços regulares de limpeza, segundo o estudo.

Justamente para dar conta do lixo que os banhistas levam é que foram feitas as análises de material encontrado e a comportamental. "A partir das constatações, pensamos em como estimular os banhistas a mudar de atitude e os comerciantes a entrarem também nisso, substituindo os materiais que ofertam", conta.

O estudo aponta que em uma extensão de 8 km de faixa de areia, os banhistas de Santos compartilham a praia com mais de 200 mil bitucas de cigarro, 15 mil lacres, tampas e anéis de lata, 150 mil fragmentos de plásticos diversos, 7 mil palitos de sorvete e churrasco e 19 mil hastes plásticas de pirulitos e cotonetes.

Os plásticos aparecem em primeiro lugar: 52,5% de todos os resíduos coletados, com plástico filme, pequenos tubos plásticos, hastes plásticas e isopor, que contém plástico em sua composição. Bitucas de cigarro são 40,4% do lixo coletado. Na sequência aparecem borracha, metal, madeiras, embalagens e outros (7,11%).

O Projeto Lixo Fora D'Água segue com a mesma dinâmica em outras seis cidades da costa: Balneário Camboriú (SC), Bertioga (SP), Fortaleza (CE), Ipojuca (PE), Rio de Janeiro (RJ) e São Luís (MA). Também serão feitos diagnósticos individualizados de materiais e comportamento para propor ações de prevenção, limpeza e monitoramento do lixo no mar.

A ideia é que o plano possa ajudar no desenvolvimento de melhores práticas para evitar que os resíduos continuem a poluir a orla das praias.