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Polícia mata 1 adolescente por semana em São Paulo

Segundo a Polícia Militar, os criminosos estão cada vez mais bem armados, e os jovens costumam ser mais ousados no enfrentamento

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16 OUT 2017Por Folhapress12h30
A polícia paulista mata ao menos um adolescente por semana na CapitalFoto: Divulgação

A polícia paulista mata ao menos um adolescente por semana em casos atribuídos a confrontos na periferia da cidade de São Paulo. É o que mostra análise da Folha de S.Paulo sobre 391 óbitos registrados como "decorrentes de intervenção policial" entre julho de 2016 e junho de 2017. Essas ocorrências, nesses 12 meses, representam 29% de todas as 1.353 mortes violentas analisadas na capital, o que inclui tanto homicídios simples como latrocínios.

Segundo a Polícia Militar, os criminosos estão cada vez mais bem armados, e os jovens costumam ser mais ousados no enfrentamento.

Para especialistas, porém, a letalidade policial está alta demais e atinge apenas a população pobre e periférica.

Os casos analisados pela reportagem incluem tanto confrontos com policiais em serviço como intervenções deles em horários de folga.

A estatística oficial do governo Geraldo Alckmin (PSDB) contabiliza 457 casos de mortes em ações policiais no período, mas a reportagem não localizou informações referentes a 66 deles na página da transparência da Secretaria da Segurança Pública. Por isso, esses casos não foram contabilizados na análise.

De todos os conflitos ao longo desse intervalo, apenas 10% aconteceram no centro expandido. É na zona leste que se concentram 36% das mortes por policiais. Em bairros como Sapopemba, Itaim Paulista e Lajeado, todos nessa região, houve, em média, um registro por mês.

Jovens de 14 a 17 anos representam 17% dos mortos por policiais. Essa alta incidência de adolescentes faz com que pessoas mortas pela polícia sejam, em média, 10 anos mais novas que as vítimas de homicídios dolosos na cidade -22,7 anos ante 33,6 anos, respectivamente.

Luto

Na zona leste da cidade de São Paulo, o volume de casos de jovens mortos por policiais impulsionou a criação do coletivo Mães em Luto, que cobra das autoridades investigação sobre essas mortes.

Uma das mães do grupo é a balconista Iracema Oliveira Ferreira, 38, moradora da favela Elba, região de Sapopemba. O filho dela, Wesley Ferreira Gomes, 17, foi morto por um policial militar de folga -o caso foi registrado como morte decorrente de intervenção policial em setembro de 2015.

A versão do PM é que ele ouviu um barulho, abriu a janela de casa e viu dois adolescentes roubando um homem na parada de ônibus.

O PM afirma ter gritado "polícia", ao que um dos jovens teria apontado uma arma na direção dele -da janela, então, fez vários disparos na direção dos suspeitos.

O policial afirma que saiu em perseguição dos suspeitos e encontrou um dos rapazes ferido. Já Wesley foi achado morto em uma rua mais adiante, com tiros na coxa e no abdômen, diz a polícia.
Iracema diz ter certeza que o rapaz foi assassinado pelo policial após a perseguição.

Segundo ela, o filho já namorou com a filha do policial, e o homem lhe fazia ameaças. "Ele [o PM] não aceitava o namoro porque falava que o Wesley era da favela, vagabundo e era noia."

A Polícia Civil investigou e não viu irregularidades na ação do PM, mas o Ministério Público pediu novas diligências sobre o caso.

O policial tem outro incidente com morte na carreira -este em horário de serviço, relacionado a uma perseguição a suspeitos de roubo.

'Matáveis'

A reportagem ouviu tanto de policiais quanto de adolescentes moradores da periferia que há um permanente clima de hostilidade e de tensão entre eles. PMs se dizem desrespeitados, enquanto os adolescentes relatam abusos e agressões constantes.

A diretora do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, Samira Bueno, afirma que crimes dificilmente resultam em condenação dos policiais, já que essas vítimas são sujeitos vistos como "matáveis" por parcelas da sociedade e do poder público.

"Esse percentual [de 29% de todas as mortes violentas] de um território é muito alto, sob qualquer métrica internacional de uso da força", diz Samira, numa referência a aquelas de responsabilidade de policiais. "E quem morre em ações policiais é uma população pobre, periférica, negra e masculina", completa.

O ouvidor da polícia do Estado, Julio Cesar Fernandes Neves, ressalta a diferença nas abordagens da polícia em locais pobres da cidade. Ele lembra a frase dita em agosto pelo tenente-coronel Ricardo Augusto Nascimento de Mello Araújo, comandante da Rota, segundo o qual as abordagens nos Jardins e na periferia têm de ser diferentes.

Para o ouvidor, os policiais não têm seguido o treinamento recebido para uso moderado da força, o método Giraldi, que ensina que atirar é a última de uma série de opções. "Se fosse efetivamente cumprido, não haveria tantas mortes de civis e dos policiais."

Maioria de ações é concluída sem vítimas, diz PM

O governo Geraldo Alckmin (PSDB) afirma que investiga todos os casos com mortes em ações policiais e que a maioria dos confrontos acaba sem casos fatais.

"A nossa média é de 1.400 confrontos por ano na capital -15% resulta em morte. Tem que trabalhar muito para chegar a 10%, a 5%. Só que a opção do confronto, no fim das contas, é do criminoso", afirma o capitão Rodrigo Fernandes Cabral, da comunicação social da PM.

Cabral atribui o alto número de jovens nas estatísticas à "falta de uma legislação mais dura" e "pela glamorização do crime". "Eles se colocam em situações de risco muito mais do que os próprios adultos. Eles são mais impetuosos, muitas vezes, até mais violentos", diz.

O oficial diz que a letalidade policial é preocupante, mas que a taxa é impulsionada por uma equação composta por criminosos mais bem armados e maior velocidade no atendimento das ocorrências por parte da polícia.

O policial afirma que neste ano foram apreendidos 56 fuzis pela polícia, contra 12 em 2005. "Você chegando mais rápido na ocorrência, a chance de acontecer o confronto é maior." O capitão também defende a ação dos policiais de folga e diz que eles "têm que tomar uma atitude". "É questão de ofício. O policial é cobrado pela comunidade, pela sociedade que ele conhece."

Outro fator que influencia na decisão dos PMs, diz o oficial, é a possibilidade de ser reconhecido e morto pelos criminosos. "Quando ele é vítima, a situação piora. Porque, se detectado que ele é policial, [o policial] sabe que vai morrer. Se entregar a arma, entregar tudo, o cara vai matar ele", diz.

Em nota, a Secretaria da Segurança Pública diz que todos os casos são investigados pela Polícia Civil, "acompanhados pelas respectivas corregedorias das corporações e comunicados imediatamente ao Ministério Público".

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