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Polêmica: Presidente da Fundação Palmares vai destruir arquivos sobre Carlos Marighella

O anúncio foi feito nas suas redes sociais, nesta terça (1º), e ocorre em meio a uma série de censuras promovidas pela Fundação

Político, guerrilheiro e poeta, Carlos Marighella vivenciou a repressão de dois regimes autoritários: o Estado Novo (1937-1945), de Getúlio Vargas, e a ditadura militar. / Reprodução/Internet

O presidente da Fundação Palmares, Sérgio Camargo, anunciou que todos os arquivos atrelados ao guerrilheiro comunista Carlos Marighella serão excluídos do acervo da instituição. O anúncio foi feito nas suas redes sociais, nesta terça (1º), e ocorre em meio a uma série de censuras promovidas pela Fundação.

"Além do imprestável Marighella, livros que promovem pedofilia, sexo grupal, pornografia juvenil, sodomia e necrofilia também estão com os dias contados na [Fundação] Palmares. Serão excluídos do acervo", escreveu Camargo.

"O diretor Marco Frenette finaliza o relatório público. Temos material comprobatório."

Apesar de citar "pedofilia, sexo grupal, pornografia juvenil, sodomia e necrofilia", o presidente não especifica quais arquivos do acervo contém esse tipo de conteúdo, nem cita os documentos de Marighella que também serão excluídos da instituição.

Na terça, Camargo publicou um tuíte prometendo dizer em breve a data quando será anunciada a lista do acervo excluído, que segundo ele, contém 300 livros repletos "de marxismo e perversão sexual".

No Twitter, Mario Frias, secretário da Cultura, comemorou a decisão de Camargo e usou alguns emojis para celebrá-lo.

Para Paulo César Ramos, sociólogo, pesquisador do Afro-Cebrap e coordenador do projeto Memória e Identidade do Ativismo Afro-brasileiro, a medida está inscrita numa lógica de disputa simbólica e tem "um impacto gigantesco" para os pesquisadores do país.

"É uma decisão profundamente ideológica e imoralizante", afirma o especialista. "Isso constrói mentiras históricas, trata-se de uma subversão da memória. O que ele [Sérgio Camargo] está produzindo é o esquecimento, a antiverdade e justamente aquilo definido pelo Abdias do Nascimento como 'genocídio simbólico'."

Ramos diz ainda que em meio a censuras como essa é preciso encontrar formas alternativas de valorização da memória negra. "E o que precisamos nos atentar é que hoje ele fala do Marighella, mas amanhã será outro."

Em junho do ano passado, diversas biografias de personalidades negras importantes da história brasileira foram censuradas de forma sistemática no site da Fundação, instituição federal que tem como objetivo zelar por essa memória.

Funcionários e pesquisadores do órgão acusaram Camargo de negar a importância dessas pessoas, principalmente aquelas que se projetaram como símbolos da esquerda, como é o caso de Marighella, ícone da luta armada contra a ditadura militar.

Na época, profissionais da instituição disseram ao jornal Folha de S.Paulo, em anonimato, que esse tipo de prática tem atingido ainda outros servidores ligados à Secretaria Especial da Cultura no governo Bolsonaro.

Marighella foi membro do Partido Comunista Brasileiro, deputado federal na Bahia e cofundador da ALN, a Ação Libertadora Nacional, que usava táticas de guerrilha urbana para lutar contra o regime militar.

"Ao retirar as obras de Mariguella do acervo, a Fundação Palmares, infelizmente, passa a compactuar com uma perspectiva histórica e política que elege como e quais e personagens devem ser rememorados", explica a historiadora Ynaê Lopes dos Santos, autora dos livros "História da África e do Brasil Afrodescendente" e "Além da Senzala: Arranjos Escravos de Moradia no Rio de Janeiro".

Segundo a pesquisadora, a decisão beira à censura e inviabiliza uma das grandes lideranças negras brasileiras.
"A função de instituições públicas como a Fundação Palmares, que contenham acervos, é oferecer livre acesso à documentação, e não eleger quem deve, ou não, ser lembrado."

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