Morte de Teori alimenta teorias da conspiração na internet

Personalidades de todos os espectros políticos, contudo, sugerem que pode haver algo de criminoso por trás do acidente

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20 JAN 2017Por Folhapress08h30
A morte de Teori movimentou as redes sociais com teorias da conspiraçãoFoto: Agência Brasil

Acidente? A internet acha que não. A morte do ministro do Supremo Tribunal Federal Teori Zavascki num acidente de avião em Paraty (RJ), nesta quinta-feira (19), movimentou as redes sociais com teorias da conspiração.

A linha de pensamento que prepondera: Zavascki é relator da Lava Jato, operação que transferiu dos círculos do poder para a cadeia de Eduardo Cunha (PMDB-RJ) a Marcelo Odebrecht. Seria, portanto, natural que quisessem tirá-lo do caminho.

Como sintetiza o músico Lobão no Twitter: "APAGARAM O TEORI!".

As causas que levaram à queda do monomotor ainda não foram apuradas. Personalidades de todos os espectros políticos, contudo, sugerem que pode haver algo de criminoso por trás do acidente.

"Tem que investigar a queda do avião, sim! Queremos investigação transparente, feita por equipe formada por membros de vários órgãos", tuitou Janaina Paschoal, coautora do pedido de impeachment de Dilma Rousseff. Na mesma publicação, ela replica antigo post atribuído a Francisco Prehn Zavascki, filho do ministro. A mensagem -publicada nas redes sociais e depois deletada- sugere que Francisco temia pelos Zavasckis.

Às 23h06 de 26 de maio de 2016 ele escreveu: "É óbvio que há movimentos dos mais variados tipos para frear a Lava Jato. Penso que é até infantil imaginar que não há, isto é, que criminosos do pior tipo (conforme o Ministério Público Federal afirma) simplesmente resolveram se submeter à lei! Acredito que a Lei a as instituições vão vencer. Porém, alerto: se algo acontecer com alguém da minha família, vocês já sabem onde procurar...! Fica o recado!".

Um dos principais investigadores da operação da Polícia Federal, o delegado Marcio Adriano Anselmo, foi outro a pedir investigação "a fundo" sobre a fatalidade "na véspera da homologação da colaboração premiada da Odebrecht".

O vereador Eduardo Suplicy (PT-SP) seguiu a mesma toada: "É importante que as causas do acidente sejam apuradas".

Um diálogo divulgado em maio entre o então ministro do Planejamento, Romero Jucá (PMDB-RR), e o ex-presidente da Transpetro Sérgio Machado, também deu combustível aos conspiradores virtuais.

Dizia Machado, em trecho que à época foi interpretado como uma tentativa de estancar a sangria política desatada pela Lava Jato: "Um caminho é buscar alguém que tem ligação com o Teori, mas parece que não tem".
"Não tem", rebate Jucá. "É um cara fechado, foi ela [Dilma] que botou, um cara... Burocrata da... Ex-ministro do STJ [Supremo Tribunal de Justiça]."

O perfil da Dilma Bolada, paródia da ex-presidente administrada pelo publicitário Jeferson Monteiro, foi um dos que republicaram uma matéria da Folha de S.Paulo que terminava com este trecho.

Outro ponto que atiçou o batalhão virtual: se Teori desagradava, quem assumirá a relatoria da Lava Jato? A vaga do ministro no Supremo, assim como o cargo de relator, poderão ficar com um ministro a ser indicado pelo presidente Michel Temer.

Seu partido, o PMDB, tem vários integrantes implicados na Lava Jato. O próprio Temer foi envolvido em esquemas de corrupção por delatores, embora nenhum inquérito tenha sido aberto contra ele até hoje.

As redes sociais evocaram outras mortes envolvendo políticos e desastres aéreos, sempre em momentos cruciais da história. Os nomes do ex-governador de Pernambuco Eduardo Campos e do ex-presidente da Câmara Ulysses Guimarães passaram horas entre os tópicos mais populares do Twitter.

Campos (PSB) morreu após seu jato cair em Santos (SP), em 2014. Ele disputava a Presidência da República e estava em terceiro lugar nas pesquisas, atrás de Dilma (PT) e Aécio Neves (PSDB).

Já Ulysses (PMDB), um dos ícones da redemocratização do Brasil, estava num helicóptero que tombou no litoral fluminense, em 1992. Ele presidiu a Assembleia Nacional Constituinte, que pariu a Constituição de 1988.

Como deputado, brigou para que a votação que selou o impeachment do então presidente Fernando Collor não fosse secreta. Morreu dez dias após o presidente cair.

Entre os termos mais em voga no Twitter (trending topics) apareceu também "House of Cards", série americana sobre um político sem escrúpulos que chega à Casa Branca após sucessivos golpes nos bastidores de Washington.

Disse uma internauta: "Se isto fosse um episódio de 'House of Cards', todos achariam que os roteiristas foram longe demais nesta temporada".