Metrô de SP abre licitação para conceder nome de 6 estações para empresas

A concessão dos chamados "naming rights", ou direito de nomear, permite que uma empresa associe a marca ao nome de uma estação de metrô, como o Rio de Janeiro fez em janeiro com a estação Botafogo/Coca-Cola

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01 MAI 2021Por Folhapress15h29
O governo de São Paulo publicará na próxima terça-feira (4) o edital para empresas patrocinarem o nome de seis estações da capital paulista.O governo de São Paulo publicará na próxima terça-feira (4) o edital para empresas patrocinarem o nome de seis estações da capital paulista.Foto: Rovena Rosa/Agência Brasil

O governo de São Paulo publicará na próxima terça-feira (4) o edital para empresas patrocinarem o nome de seis estações da capital paulista. O aviso de licitação das estações Consolação (linha 2-verde), Brigadeiro (linha 2-verde), Anhangabaú (linha 3-vermelha), Carrão (linha 3-vermelha), Penha (linha 3-vermelha) e Saúde (linha 1-azul) foi publicado no Diário Oficial neste sábado (1º).

A concessão dos chamados "naming rights", ou direito de nomear, permite que uma empresa associe a marca ao nome de uma estação de metrô, como o Rio de Janeiro fez em janeiro com a estação Botafogo/Coca-Cola.

À Folha, o secretário de Transportes Metropolitanos, Alexandre Baldy, afirmou que que o objetivo é levantar R$ 1 bilhão ainda neste ano concedendo o nome de estações movimentadas, na tentativa de amortizar o impacto da redução drástica de passageiros durante a pandemia, que fez o Metrô fechar o ano de 2020 com prejuízo de R$ 1,7 bilhão.

Isso porque a empresa é altamente dependente da tarifa paga pelos passageiros para se financiar. Cerca de 70% da receita até 2019, no pré-pandemia, vieram dos bilhetes.

Com as medidas de distanciamento, implementação do trabalho em casa para alguns setores e alta taxa de desemprego, o movimento nas linhas operadas pelo Metrô caiu de 1,1 bilhão de viagens em 2019 para 554 milhões em 2020. Somada às linhas privatizadas (4-amarela e 5-lilás), a redução foi de 1,5 bilhão de viagens para 764 milhões.

Nestas seis primeiras estações que podem ter os nomes concedidos, entraram em média 137 milhões de passageiros nos dias úteis no último mês de março, já com demanda reduzida pela pandemia. A mais movimentada foi a Consolação, com média de 40 milhões de passageiros por dia útil.

Não entrou nesse primeiro pacote, mas uma possibilidade tratada por Baldy nas últimas semanas com o ex-presidente do Corinthians, Andrés Sanchez, foi conceder o nome da estação Corinthians-Itaquera, na zona leste, que poderia virar Corinthians-Itaquera/Neo Química, já que a farmacêutica comprou o nome do estádio.

Baldy cita ainda outras iniciativas para arrecadar recursos e cortar gastos, como a concessão de toda a área bruta locável (dos comércios e lanchonetes, por exemplo) da linha 2-verde. O governo prepara agora a entrega à iniciativa privada desses espaços nas linhas 1-azul e 3-vermelha.

"Este é o objetivo: aumentarmos as receitas não tarifárias e reduzir as despesas para realizar o trabalho", diz.

O Metrô também quer neste ano fechar bilheterias em 25 estações para cortar R$ 14 milhões em despesas. Para isso, extinguiu o bilhete magnético e implementou o tíquete com um código QR, que pode ser gerado pelo próprio celular do usuário.

Além do Metrô, a CPTM (trens metropolitanos) também estuda conceder os nomes de algumas estações. Em abril, a companhia contratou um instituto de pesquisa para fazer estudos técnicos dos naming rights de quatro estações: Luz, Brás, Vila Olímpia e Mooca.

A concessão dos nomes das estações do Metrô foi autorizada pela CPPU (Comissão de Proteção à Paisagem Urbana), da prefeitura da capital paulista, em fevereiro, e o Metrô inclusive já fez modelos de como ficarão as placas das paradas.

A possibilidade, no entanto, é criticada por alguns especialistas, como Rafael Calabria, do Idec (Instituto de Defesa do Consumidor), que afirma que, no limite, a concessão dos nomes das estações atrapalha o funcionamento do transporte na medida em que pode confundir passageiros.

Calabria diz que a nomenclatura das estações segue critérios geográficos, históricos e urbanos. "O nome da estação vira uma referência para as pessoas. Por exemplo, a estação Clínicas fica entre os bairros dos Jardins e Pinheiros. Mas quem mora lá diz que mora perto do metrô Clínicas, essa é uma referência coesa", diz.

Calabria ainda levanta a possibilidade de estações diferentes ganharem nomes similares, como Mastercard e Credicard, por exemplo. "E quando vence o contrato, a estação muda de nome? Você confunde ainda mais o cidadão", diz.

"Buscar outras fontes de receita além da tarifa é central, mas não pode ser qualquer solução, é preciso avaliar se é razoável. Pode ser rentável, mas vender os nomes prejudica o direito à informação clara do passageiro", diz.

Ele diz que é possível pensar em outras formas de arrecadar recursos sem mudar o nome da estação, como um banco pagar pelo direito de colocar caixas eletrônicos em determinada linha, ou fazer propagandas nos assentos dos veículos.

Baldy rebate essas críticas dizendo que, no fim, o maior beneficiado é o passageiro, que não tem aumento da tarifa.

"O mundo evolui e precisamos enxergar as coisas como precisam ser. O Metrô precisa de receita para operar, e o cidadão não quer pagar aumento de tarifa. Portanto precisamos focar no que o cidadão deseja, buscar receitas não tarifárias para equilibrar o financeiro do Metrô e evitar a dependência de custeio com a venda de bilhetes", justifica o secretário.

Além do Rio, alguns sistemas metroviários pelo mundo adotam ou adotaram a concessão de nomes das estações para marcas, mas a prática é pouco disseminada.

Em Nova York, por exemplo, a empresa que opera o metrô vende os naming rights com a condição de que a marca esteja associada ao local da estação, mas apenas uma das 472 estações tem o nome de uma marca: Atlantic Avenue, no Brooklyn, virou em 2012 Atlantic Avenue-Barclays Center, depois que um estádio de mesmo nome foi construído no local. O nome da estação foi cedido por 20 anos, ao custo de US$ 200 mil por ano.

Em Madri não há a preocupação de o nome da empresa estar relacionado ao lugar. Em 2012, a estação Sol virou por um mês Sol Galaxy Note, patrocinada pela Samsung. Depois, entre 2013 e 2016, virou Vodafone Sol, patrocinada pela companhia telefônica, por EUR 1 milhão ao ano.