Lula repete fala de Eduardo Bolsonaro e diz que está solto, mas não livre

Lula foi solto após novo entendimento do STF (Supremo Tribunal Federal) sobre prisão em segunda instância, caso do ex-presidente

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17 JAN 2020Por Folhapress13h37
A hashtag Lula Inocente tem sido usada com o slogan oficialFoto: Fabio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil

"Mais uma da série 'Lula solto não é sinônimo de Lula livre'", tuitou o deputado federal Eduardo Bolsonaro (PSL-SP) no dia 9 de novembro de 2019, um dia após o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) deixar a Superintendência da Polícia Federal do Paraná, em Curitiba.

Filho de Jair Bolsonaro, o deputado usou a expressão com conotação negativa para esfriar as celebrações de petistas com a soltura de Lula após 580 dias de prisão. O tuíte citado acompanhava uma reportagem sobre a impossibilidade de o líder do PT, que segue condenado, se candidatar à Presidência da República.

Dois meses depois, Lula ecoa discurso semelhante. "Eu não estou livre, eu estou solto", afirmou em entrevista ao site Diário do Centro do Mundo transmitida pelo YouTube no dia 8 de janeiro. Ele completa: "É importante lembrar que tem muitos processos e eles vão inventando cada dia um. Eles não têm limite". Na última quarta-feira (15), em entrevista à TVT, Lula repetiu a frase.

A ideia, que já vem sendo replicada por entidades amigas do ex-presidente, tende a ganhar força a partir de reunião neste sábado (18) que vai atualizar e reposicionar para 2020 a campanha Lula Livre -bandeira de seus apoiadores no período da prisão.

Estarão no encontro membros do PT, de outros partidos de esquerda e do Instituto Lula e movimentos sociais, como o MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra).

O trecho da entrevista do dia 8, em que o ex-presidente diz que está solto e não livre, foi repercutido em um vídeo do Boletim Lula Livre -que distribui por WhatsApp conteúdo em vídeo da campanha- e compartilhado pelo deputado federal Beto Faro (PT-PA) em sua conta no Twitter.

Na sexta-feira em que Lula saiu da prisão, parte da militância comemorou a liberdade de Lula como a concretização do slogan. "Livre" e "solto" acabaram sendo vistas como palavras-chave para identificar pessoas que apoiavam ou não o ex-presidente. Após a euforia, o comitê Lula Livre revê a estratégia.

"A gente fez até a reflexão se deveríamos mudar ou não o nome", afirma Ana Flávia Marx, coordenadora de comunicação da campanha.

A conclusão, no entanto, foi de que a condição atual do petista não seria de liberdade. A jogada permite que o slogan ganhe fôlego e continue sendo usado. "Não tinha como a gente comemorar com 'Lula solto', mas a verdade é que aquele foi um momento de vitória parcial", diz.

"É muito importante essa frase que o Lula está dizendo porque ainda podem acelerar o processo do sítio [de Atibaia], podem inventar outro processo e ele ser colocado de novo em cárcere", afirma Marx.

Na nova fase, as principais demandas serão os questionamentos sobre a suspeição do ex-juiz e atual ministro da Justiça, Sergio Moro, a anulação dos processos e a retomada dos direitos políticos de Lula.

Lula foi solto após novo entendimento do STF (Supremo Tribunal Federal) sobre prisão em segunda instância, caso do ex-presidente. A corte considerou que ela só deve ocorrer depois do trânsito em julgado (fim dos recursos).

O petista ficou preso após ser condenado por corrupção e lavagem de dinheiro no caso do tríplex de Guarujá (SP). A condenação foi imposta inicialmente por Moro e ratificada depois na segunda instância pelo TRF-4  (Tribunal Regional Federal da 4ª Região) e pelo STJ (Superior Tribunal de Justiça), com variações no tamanho da pena.

Lula também foi condenado no caso do sítio de Atibaia (SP) em primeira e segunda instância.

O Congresso se articula neste ano para rever a decisão do Supremo sobre a prisão de condenados antes do esgotamento dos recursos. Já foi aprovada na Comissão de Constituição e Justiça da Câmara uma proposta de emenda à Constituição que, na prática, altera a classificação do que é considerado trânsito em julgado.

A análise do questionamento de Lula sobre a suspeição de Moro está na Segunda Turma do STF e pode ser julgada este ano. A defesa do ex-presidente tenta a anulação das decisões do ex-juiz alegando que ele foi parcial no julgamento da Lava Jato. 

As condenações impedem Lula de se candidatar. A Lei da Ficha Limpa, sancionada em 2010 pelo próprio petista quando presidente, veta a sua candidatura, pois proíbe que políticos cassados ou condenados em segunda instância concorram a eleições até completar oito anos do cumprimento de todas as penas.

"Com o Lula solto cria-se essa falsa impressão de que o problema dele está resolvido. Mas a gente tem que continuar explicando que não, continuar organizando a população e explicar que a luta para continuar os plenos direitos políticos do Lula continua", afirma Paulo Okamoto, presidente do Instituto Lula. "O lema é Lula Livre e nós vamos trabalhar com as variáveis dele."

O comitê Lula Livre foi criado em 2018 e, no site oficial, os internautas são encorajados a criar unidades em suas regiões. Internacionalmente, ganhou o nome de "Comitê de Solidariedade Internacional em Defesa de Lula e da Democracia no Brasil" e é coordenado pelo ex-chanceler Celso Amorim.

"Muitos comitês no exterior se criaram espontaneamente. A gente só coordena", afirma o diplomata. Entre as atividades estão a distribuição de informações e a organização de abaixo-assinados.

Fotos publicadas na conta do Instagram da CUT (Central Única dos Trabalhadores) mostram a evolução do entendimento da campanha desde a soltura do ex-presidente.

Um dia antes de Lula sair da prisão, o entidade postou uma ilustração de Lula com a palavra "livre". No dia 29 de novembro, outro desenho dizia: "Não existe meia liberdade. Por isso, só existe Lula Livre por inteiro!". Ilustração semelhante à primeira, mas com a palavra "inocente", foi publicado no dia 5 de dezembro.

A hashtag Lula Inocente tem sido usada com o slogan oficial de maneira espontânea. Segundo militantes do partido, logo após a soltura de Lula, a inclusão da frase à campanha foi cobrada isoladamente por manifestantes, mas as tentativas não vingaram.

Marx, coordenadora de comunicação da campanha, afirma que a decisão de não mudar foi para não perder o trabalho feito até então. "Hoje junta gente em um show e grita Lula Livre, fazem reunião em uma entidade e falam Lula Livre. Isso mostra a clareza da nossa narrativa desde o começo", afirma.