Familiares fazem minuto de silêncio por vítimas de Brumadinho

Um ano depois, neste sábado (25), às 12h19, em frente ao letreiro da cidade, os nomes das 270 vítimas – 259 identificadas e 11 ainda desaparecidas – começaram a ser lidos em voz alta. As famílias contam 272 vítimas, incluindo dois bebês que ainda estavam

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25 JAN 2020Por Folhapress20h00
Foto: Adriano Machado/Reuters/AB

O minuto de silêncio pontualmente às 12h28 virou uma tradição de todos os dias 25 nos atos de familiares e amigos das vítimas do rompimento da barragem da Vale no Córrego do Feijão, em Brumadinho. O horário em que a lama derrubou a estrutura e invadiu quilômetros a frente.

Um ano depois, neste sábado (25), às 12h19, em frente ao letreiro da cidade, os nomes das 270 vítimas – 259 identificadas e 11 ainda desaparecidas – começaram a ser lidos em voz alta. As famílias contam 272 vítimas, incluindo dois bebês que ainda estavam nas barrigas das mães. Em seguida, veio o silêncio. 

Fotos e nomes em faixas foram espalhados por todo o entorno do local que virou um ponto simbólico de memória pela tragédia. "A Vale levou meu esposo e hoje convivo com a dor e a tristeza", lia-se em um cartaz. "Indignação. Saíram de casa para trabalhar e nunca mais voltar", dizia outro.

Daise Laura da Silva, 32, vestia a camiseta com a foto do marido Tiago Tadeu, mecânico da Vale, 34. Ela está entre as 11 famílias que ainda não conseguiram enterrar quem perderam.

Tiago havia sido transferido há menos de um mês para a mina do Córrego do Feijão. Desde criança, ele sonhava em ser engenheiro, como escreveu em seu convite de formatura. O curso ele concluiu em dezembro; a cerimônia aconteceu em março, sem ele.

O marido de uma prima foi quem ligou para Daise avisando sobre o rompimento, assim que a notícia começou a circular. Durante 24 horas, ela ficou com o telefone nas mãos esperando novidades, cuidando se o aparelho iria tocar.

"Não tocou e estamos esperando até hoje por notícia", diz. Daise conta que chegou a pensar que daria conta de suportar o luto, mesmo se o corpo de Tiago não fosse encontrado. Quando viu os números de desaparecidos diminuindo, viu que não. Para ela, não seria justo com os filhos.

"A minha filha descobriu outro dia, conversando com um amiguinho, que as pessoas quando morrem são enterradas. Ela nunca foi em um velório. Ela falou: então, mãe, meu pai não morreu, a gente nunca enterrou meu pai", conta.

O primeiro dia de finados sem ele, a família passou sem um local para visitar. Se reuniram com outras famílias de vítimas do rompimento, em Brumadinho.

"Eu costumo falar que a gente nem entrou no luto ainda, que estamos aguardando. No fundo, a gente ainda tem a esperança ilógica, de que ele vai chegar", diz Daiana Mendes Almeida, 33, irmã de Tiago.

Durante o ato das famílias, um representante leu ao microfone uma série de reivindicações, entre elas, mais rigor na lei de segurança de barragens e punição para os responsáveis do desastre no Córrego do Feijão.

A denúncia apresentada pela Promotoria de Minas Gerais esta semana, que acusou 16 funcionários da Vale e da Tuv Sud por homicídio doloso duplamente qualificado, afirma que as empresas tinham conhecimento da situação de risco da B1 e operaram juntas para escondê-la. As empresas foram denunciadas por crimes ambientais.

O teólogo Leonardo Boff cancelou uma viagem ao exterior para estar na cidade, junto aos familiares, neste dia 25.

"Esse acontecimento, que é um crime, porque eles sabiam dos riscos e não tomaram as medidas, foram denunciados por isso, é a ocasião para pensar que esse tipo de sociedade, que rompe ligações entre as pessoas, degrada natureza, esse tipo de mundo não pode continuar", diz ele.

O evento das famílias estava previsto para acontecer em um estacionamento ao lado do rio Paraopeba, que acabou interditado pela Defesa Civil municipal, por questões de segurança. As chuvas que tem atingido Belo Horizonte e a região metropolitana nas últimas semanas fizeram o rio transbordar.

A Defesa Civil de Brumadinho teve que realocar oito famílias que vivem em zonas ribeirinhas da cidade, pelo risco de terem suas casas invadidas pela água. Algumas foram levadas para escolas, outras foram para casas de parentes.

Como o rio continua subindo em alguns pontos, como na cidade de Belo Vale, ainda não há previsão de quando eles poderão retornar às residências. 

Minas Gerais tem oito mortes confirmadas, 16 desaparecidos, 791 desabrigados, 2.554 desalojados e 3.375 pessoas afetadas pelas chuvas, segundo levantamento divulgado pela Defesa Civil estadual no final da manhã deste sábado.