Enem tem 30,2% de ausência; tema da redação foi desafiador

Ao todo, 273 candidatos foram eliminados por descumprimento das regras gerais - nove deles por terem objetos proibidos identificados por meio de detector de metais

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06 NOV 2017Por Estadão Conteúdo08h30
Candidatos chegam à Universidade Veiga de Almeida, no Rio, para primeiro dia de provas do Enem 2017Foto: Agência Brasil

Após decisão polêmica do Supremo Tribunal Federal (STF), de impedir que candidatos do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) possam ter a redação ser zerada caso o candidato cometa desrespeito aos direitos humanos, o tema do texto deste ano foi sobre inclusão na educação: "Desafios para a formação educacional de surdos no Brasil". O tema foi considerado desafiador por especialistas e pegou os participantes da prova de surpresa. A expectativa era de que a redação fosse sobre diversidade sexual ou política, por exemplo

A primeira prova do Enem deste ano foi realizada neste domingo e registrou 30,2% de ausência - dentre os 6,7 milhões de inscritos, 4,3 milhões participaram do exame. Ao todo, 273 candidatos foram eliminados por descumprimento das regras gerais - nove deles por terem objetos proibidos identificados por meio de detector de metais. A segunda prova, com questões de Matemática e Ciências da Natureza, será realizada no próximo domingo, 12.

Em Belo Horizonte, a estudante Brenda Gabriela Noronha, de 17 anos, foi uma das primeiras participantes do Enem a deixarem o prédio de uma faculdade no centro, onde cerca de 2,5 mil estudantes estavam inscritos para prestar o exame. "Não esperava esse tema. Não passou nem perto do que imaginei. Pensei que seria alguma coisa ligada à diversidade sexual", afirmou a estudante. Bianca Hellen Beloni, de 21 anos, também foi nessa linha. "Foi algo muito falado. Tem também o (cantor) Pablo Vittar, que faz muito sucesso", justificou.

Pedro Henrique Ferreira Gonzaga, de 18 anos, também não esperava tema nessa área. Mas imaginou que seria alguma coisa relacionada à política. "Mas acho que deu certo. Falei sobre o fato de empresas preferirem o lucro a investir na capacitação de pessoas que enfrentam esse problema", disse.

Em São Paulo, o estudante do terceiro ano do ensino médio, Erik Enzo Okuhama, de 17 anos, acredita que o tema facilitou a prova para estudantes que têm conhecimento sobre temas gerais. "Achei que seria mais polêmico, mais atual. Acabei focando em educação de uma forma mais ampla. Como estudo em escola pública, sei que as escolas têm uma delas agem defasagem, daí falei que ela é ainda maior para pessoas que têm alguma deficiência", comenta.

Houve até quem desistisse de fazer a redação. "Já não estava muito a fim de fazer e, quando veio este tema difícil, optei por não fazer. Estou fazendo o Enem pela quinta vez somente para testar meus conhecimentos", disse o estudante de Nutrição, Jorge Alan, de 19 anos, ao sair das provas realizadas no Centro Universitário Estácio do Ceará.

Alunos também avaliaram, como em outros anos, que os enunciados das questões do Enem foram muito extensas. Com a intenção de cursar Medicina, Rachel Almeida, de 20 anos, disse que o problema era recorrente principalmente em História. "Tinha muito conteúdo envolvendo direitos humanos, leis trabalhistas, mas não achei difícil. Foi tudo o que tinham passado na escola para a gente", diz a garota, que fez a prova no campus Vergueiro da Unip.

Segundo o ministro da Educação Mendonça Filho, não foram registradas ocorrências graves no primeiro dia de prova. O MEC verificou quatro situações: duas de pessoas que saíram correndo com o caderno de questões antes do horário permitido, além de outros dois locais de provas onde não foi possível fazer a aplicação do Enem por problemas de energia - uma em Teresina, no Piauí, e outra em Curuaçu, em Goiás. O MEC ainda não possui o número de quantas pessoas não puderam fazer o teste por problemas técnicos, mas assegurou que os participantes não serão prejudicados e poderão refazer a avaliação nos dias 12 e 13 de dezembro.

O tema da redação foi considerado atípico e pouco trabalhado ao longo do ano, mas desafiador, por professores ouvidos pela reportagem. "É um tema muito específico e muito pouco trabalhado A problematização é muito óbvia", diz a coordenadora de redação do curso Poliedro, Gabriela Carvalho. "Não é um tema do cotidiano. A gente não sabe como a pessoa surda se sente, não sabemos como é o processo de exclusão pelo qual ela passa", diz. Ela também reclamou da coletânea de informações que deveriam ser usadas pelos candidatos. "Estava muito pobre, com poucos textos e poucas informações."

O professor de Português André Valente, do Cursinho da Poli, diz que a escolha dos organizadores segue uma tendência de discutir temas relacionados a minorias. "É um tema que veio mostrar que não dá pra tratar direitos humanos como algo ideológico no sentido partidário da palavra", diz Valente. "O Inep (Instituto Nacional de Pesquisas Educacionais, órgão organizador do exame) mostra, mais uma vez, que o jovem que presta o vestibular precisa discutir esses temas."

O desafio, dizem os especialistas, é que o candidato deveria apontar uma proposta de intervenção objetiva, que não fugisse do tema proposto. "Pode contar pontos sugerir uma iniciativa de cotas e a ampliação do sistema de libras nas universidades. O aluno também pode reforçar a necessidade do poder público atuar mais efetivamente e da sociedade em cobrar mudanças", diz a professora Maria Aparecida Custódio, do Laboratório de Redação do Objetivo.