Dos afluentes ao Rio Doce: ações visam revitalização após tragédia

Fundação Renova garante que é possível tratar água para consumo

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07 NOV 2019Por Agência Brasil11h55
Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil

Passados quatro anos do rompimento da barragem da mineradora Samarco, ainda é recorrente a desconfiança de moradores de municípios banhados pelo Rio Doce em relação à qualidade da água na região. A Fundação Renova, entidade criada para reparar os danos da tragédia conforme acordo firmado em março de 2016, assegura que o tratamento permite alcançar os padrões de potabilidade exigidos para o consumo humano e conta com o respaldo de órgãos ambientais.

Entretanto, gestores do Serviço Autônomo de Água e Esgoto (SAAE) de Governador Valadares admitem que, atualmente, a população da cidade consome menos água se comparado ao período anterior ao rompimento. Isso porque muitos moradores estão recorrendo a outros meios de fornecimento. Na foz do Rio Doce, Leone Carlos, presidente da Associação de Pescadores de Regência, considera que relatórios divulgados não passaram ainda confiança sobre a qualidade da água e do pescado.

"O Rio Doce está numa condição muito similar ao que estava antes do rompimento da barragem. Ou seja: sua água é possível de ser tratada e disponibilizada para consumo da população sem nenhum risco", afirma Brígida Maioli, responsável pelo programa da Fundação Renova voltado para monitorar a qualidade da água do Rio Doce.

Há atualmente 92 pontos de monitoramento desde o Rio Gualaxo do Norte, passando pelo Rio do Carmo e chegando ao Rio Doce. Em 22 desses pontos, existem estações automáticas que geram informações em tempo real. Nos demais, a coleta é manual. São verificados 80 parâmetros físicos, químicos e biológicos. Segundo o Instituto Mineiro de Gestão das Águas (Igam), o Rio Doce é atualmente o mais monitorado do país.

De acordo com Brígida, a evolução é nítida desde o rompimento, embora seja natural que a turbidez aumente nos períodos de chuva, já que os sedimentos no fundo dos rios são remexidos. “Os metais identificados no monitoramento são os que já existiam antes na bacia. Eles fazem parte de todo o contexto histórico de exploração, que envolve lançamento de esgotos e de efluentes industriais. Mas tratada, a água fica livre desses metais e atinge o padrão de potabilidade”, reforça.

Análises sobre a presença de metais na bacia, porém, têm gerado diferentes interpretações. Em junho deste ano, uma nota técnica da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) recomendava consumo limitado de peixes do Rio Doce e apontava que a presença de cádmio, mercúrio e chumbo no pescado estava acima da média mundial. A pesca na bacia segue restrita.

A Fundação Renova vem desenvolvendo uma série de ações para melhorar a qualidade da água da bacia e aumentar as populações de peixes. A entidade assegura ter recuperado 113 afluentes, cujos leitos haviam desaparecido após a tragédia. Junto ao programa de reflorestamento, espera-se recuperar 5 mil nascentes em 10 anos.

Ao mesmo tempo, mais de R$500 milhões deverão ser investidos em projetos de saneamento de cidades. Até o fim de julho deste ano, foram recebidos 211 pleitos. Os primeiros municípios que tiveram verbas liberadas foram São José do Goiabal, Rio Casca e São Domingos do Prata, em Minas Gerais, além de Colatina, no Espírito Santo.

Paralelamente ao esforço pela recuperação do Rio Doce, foi pactuada como compensação a construção de uma nova captação de água no Rio Corrente Grande para Governador Valadares, um dos municípios mais afetados pelo desabastecimento na época da tragédia. A obra, que começou em julho de 2018 e deve ser entregue à prefeitura em março de 2021, prevê uma adutora de 35 quilômetros de extensão interligada aos sistemas de tratamento localizados em três bairros.