Com CLT em pior nível desde 2012, multidão faz fila por vagas no centro de SP

A multidão se aglomerava desde as 5 horas nas imediações do Secsp em busca de uma das 1.800 vagas formais oferecidas em mutirão

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16 JUL 2018Por Folhapress19h18
Por volta de 11 horas, a distribuição de senhas foi encerrada com 5.000 inscritosPor volta de 11 horas, a distribuição de senhas foi encerrada com 5.000 inscritosFoto: Aloisio Maurício/Fotoarena

O Vale do Anhangabaú, na região central de São Paulo, amanheceu mais movimentado do que de costume nesta segunda-feira (16). Retrato do desemprego que atingia 13,2 milhões de brasileiros no trimestre encerrado em maio.

A multidão se aglomerava desde as 5 horas nas imediações do Secsp (Sindicato dos Comerciários de São Paulo), na rua Formosa, em busca de uma das 1.800 vagas formais oferecidas em mutirão realizado pela entidade em parceria com empresas.

Letícia dos Santos Silva, 33, e o marido, Welligton, foram uns dos primeiros a chegar. Ambos estão desempregados há cerca de dois meses e têm quatro filhos para sustentar. "Estamos aqui por temos aluguel para pagar", diz Letícia.

Ela estava de olho em vagas de operadora de caixa, área em que já trabalhou, e ele, de estoquista.

Além de fazer frente à situação do desemprego no país, a iniciativa do Secsp é uma tentativa de atrair filiados, após a reforma trabalhista, em vigor desde dezembro, tornar o imposto sindical facultativo e derrubar a arrecadação dos sindicatos.

"É uma resposta pela valorização do movimento sindical e um caminho para aperfeiçoarmos a relação com as empresas. Agora, com o predomínio do negociado sobre o legislado, vamos ter que amadurecer as negociações coletivas", diz Ricardo Patah, presidente do sindicato e da UGT (União Geral dos Trabalhadores), central à qual o Secsp é filiado.

Por volta de 11 horas, a distribuição de senhas foi encerrada com 5.000 inscritos. Diante da fila que se desenrolava em caracol por todo o Vale do Anhangabaú, no entanto, o sindicato decidiu distribuir mais 5.000 senhas e limitar o atendimento nesta segunda a 1.600 pessoas. O restante virá em grupos ao longo da semana, de acordo com a cor e número da senha.

Segundo o sindicato, pela manhã houve oferta adicional por parte das empresas de 500 vagas.

Muitos se aglomeravam na porta do sindicato para tirar dúvidas sobre o atendimento pelas senhas e reclamavam que a comunicação confusa havia dispersado pessoas da fila.

Ao mesmo tempo, outros que não chegaram a tempo de se inscrever entregavam seus currículos a funcionários na porta.

"É o primeiro feirão, mas o trabalho de vaga social já existe, costumamos receber currículos e encaminhar quando há vagas", explica Cleonice Caetano, diretora do departamento de assistência social do Secsp.

Dados do IBGE de maio mostram que o país perdeu quase quatro milhões de postos com carteira assinada desde o teto em 2014, chegando ao menor nível da série iniciada em 2012.

Sindicalização

Enquanto esperavam, os candidatos eram abordados por diretores e membros do sindicato, que explicavam como seria o processo seletivo e também como funcionava a entidade. Cerca de 28 diretores e mais de 30 militantes foram mobilizados para a empreitada.

Desinformação e contenção de gastos se mostraram as principais barreiras para uma eventual filiação, que gera uma mensalidade de R$ 30.

"É importante se filiar, mas neste momento é complicado, de onde vou tirar o dinheiro?", questiona Ana Carolina Toneo, formada em marketing e sem emprego com carteira assinada há dois anos. "Só fiz bicos, estou aceitando a vaga que vier", completa.

Os haitianos Louis Pierre, 38, Oska Bellevue, 41, e Jean Alix Joseph, 54, estão no Brasil há cerca dois anos.

Tiveram empregos diversos, como pedreiro e ajudante de cozinha. Bellevue considera o movimento sindical do país forte. "Ele é importante porque há empregadores que abusam, e nós não queremos problema, só queremos trabalhar", afirma. Ele diz, no entanto, que não teria condições de pagar para se associar.

O viúvo Arnaldo José Correra, 60, já foi filiado ao sindicato dos taxistas por dois anos, mas desistiu porque achava que a entidade "não fazia nada".

"Precisaria saber como está o sindicato [dos comerciários], como funciona e quais são os benefícios para pensar em me filiar. O sindicato é importante se ajudar o trabalhador", afirma. Ele está desempregado desde novembro e, segundo Arnaldo, faltam dois anos para que consiga se aposentar.

Ícaro de Oliveira, 18, que busca o primeiro emprego, se diz mais cético. "Prefiro não me filiar, acho que o sindicato é relevante para alguns, mas não para todos", afirma.

Dentro do prédio do sindicato, candidatos se deslocavam de um andar a outro, participando em sequência de vários processos seletivos.

Vivian Donato, 42, é professora e está desempregada há três anos. Enquanto espera abertura de concurso para a rede pública, se candidatou para vagas diversas no mutirão.

"Achei organizado e uma boa iniciativa, eu me sindicalizaria se passasse no processo", afirma.

Seleção

De acordo com Patah, a maioria das vagas disponíveis no mutirão tem um salário médio de R$ 1.300. "Queremos diversificar com vagas de até R$ 5.000 futuramente."

O recrutamento acontece até as 17h na sede do sindicato (Rua Formosa, 99) em São Paulo. Há vagas como de operador de caixa e vendedor em grandes redes de farmácias, materiais de construção e supermercados, entre outros.

Os departamentos de recursos humanos das companhias estão no sindicato para iniciar o processo seletivo dos candidatos, com entrevistas e análise de currículo.

O candidato deve apresentar RG, CPF e comprovante de residência, além de seu currículo.

No Carrefour, por exemplo, a etapa no sindicato envolve um teste com 12 questões de português, matemática e conhecimentos gerais e uma redação. Até sexta-feira (20), quem passar será chamado para uma dinâmica e entrevistas com os gerentes das lojas.

Algumas empresas, como redes de supermercados, aceitam candidatos sem experiência ou ensino médio. Outras são mais restritivas, como a Clovis Calçados, que busca profissionais que já tenham trabalho no segmento.

Há também um posto do CAT (Centro de Apoio ao Trabalhador) no local para a emissão de carteira de trabalho para quem ainda não tiver o documento -é necessário apresentar RG ou outro documento oficial, orienta o sindicato.