Brasileiras vão aos EUA para ter bebê e garantir cidadania americana aos filhos

Pela legislação local, qualquer um que nasça lá recebe a cidadania automaticamente, com todos os direitos e deveres

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22 OUT 2017Por Estadão Conteúdo16h01
A Lei de Imigração e Nacionalidade dos EUA não contém qualquer inelegibilidade para gravidezFoto: Reprodução

Mulheres brasileiras têm viajado até os Estados Unidos para ter bebê em solo americano e, consequentemente, garantir que a criança adquira a cidadania americana. Pela legislação local, qualquer um que nasça lá recebe a cidadania automaticamente, com todos os direitos e deveres.

A assistente administrativa Alessandra Cristina da Silva, de 36 anos, e o representante comercial Rodrigo dos Santos, de 35 anos, tiveram o primeiro filho, Thomas, em Miami. Ela conta que nunca soube da possibilidade até engravidar e ler sobre como fazer o enxoval do bebê nos EUA. Na pesquisa, soube da existência do serviço oferecido pela agência Ser Mamãe em Miami, primeira agência americana estruturada especificamente para atender gestantes brasileiras e latinas que queiram ganhar o bebê na América do Norte.

"Convencer o marido a topar foi a parte mais difícil", brinca Alessandra, que diz que o marido tinha ressalvas em ter o primeiro filho fora do País por estar longe da família e não dominar completamente a língua.

A gestação foi avançando e Alessandra amadureceu a ideia, mesmo sem total apoio da família. Ela tinha em mente ter o filho em Miami para que ele possa, no futuro, estudar e trabalhar legalmente no País. "Todo mundo achava que estava louca, ainda mais por ser o primeiro filho. E se algo desse errado?"

O casal raspou as economias e decidiu investir cerca de R$ 100 mil (entre custos médicos, de bilhetes aéreos e de hospedagem) no sonho. Alessandra, que viajou com 32 semanas de gestação acompanhada da mãe, enquanto o marido ficou trabalhando. Thomas nasceu em 10 de julho, de parto normal. Ela voltou com o filho para o País em 19 de agosto. "Com certeza, se eu tiver um segundo filho, voltarei para os EUA."

Segundo a Embaixada Americana no Brasil, a Lei de Imigração e Nacionalidade dos EUA não contém qualquer inelegibilidade para gravidez ou intenção de ter bebê nos EUA.

No caso do Turismo do Nascimento, a exigência é que todo solicitante de visto deve demonstrar ao agente consular que não pretende usar o visto de visitante para ficar indefinidamente no país. Também deve comprovar que tem dinheiro e intenção de pagar os custos da viagem, incluindo médicos. Não há dado oficial de brasileiras que vão aos EUA para isso.

Em alta

Em 2015, foram 13 atendimentos desse tipo pela agência. Até setembro deste ano, 122. E já há casos agendados para 2018. O aumento da procura ocorreu após a atriz e apresentadora Karina Bacchi, de 41 anos, ter anunciado nas redes sociais, no meio do ano, que iria ter o seu primeiro filho, fruto de uma produção independente, nos Estados Unidos, por causa da cidadania.

"Antes recebíamos cerca de dez e-mails por semana pedindo informações. Depois da Karina, passamos a receber mais de 50", informou a Ser Mamãe em Miami. O serviço foi idealizado em 2015 pelo pediatra brasileiro Wladimir Lorentz, que vive nos EUA há 30 anos, em parceria com dois médicos obstetras (um colombiano e um equatoriano) após perceber a demanda de turistas russas em outras clínicas. "Pensei: por que não oferecer o mesmo a brasileiras e latinas que gostam tanto de Miami?", conta ele, que dá palestras para divulgar a agência.

Além do parto (é possível escolher entre natural ou cesárea) e dos custos de duas diárias de internação em dois possíveis hospitais de Miami, o pacote de inclui atendimento personalizado no fim do pré-natal, visitas domiciliares do pediatra nos primeiros dias do bebê e as vacinas de dois meses.

Casal enfrentou até furacão para filho nascer nos EUA

Foi durante curso sobre como investir nos Estados Unidos que o casal Caroline e Maurício De Santis, de 32 e 42 anos, decidiu ter um filho em solo americano. Empresários do ramo de cafeterias e cozinhas industriais, eles planejam morar nos Estados Unidos e receberam a dica de ter o bebê por lá para que ele ganhasse cidadania americana e, no futuro, pudesse viver legalmente no país.

Segundo Caroline, a advogada que estava dando a palestra do curso perguntou se eles tinham filhos. "Quando dissemos que não, ela brincou: 'Por que não aproveitam para ter um bebê americano?'", conta Caroline, que desconhecia haver um serviço voltado a gestantes brasileiras e latinas. "Ela nos explicou sobre as vantagens da cidadania americana, entre elas ter qualidade de vida, direito à escola pública. Isso ficou na nossa cabeça e fomos amadurecendo a ideia."

Em janeiro, o casal viajou a Miami de férias e decidiu ir atrás de mais informações sobre a legalidade do procedimento. Os empresários aproveitaram para conhecer as instalações dos hospitais e os consultórios dos médicos parceiros. "Isso nos deu muito mais segurança", diz a empresária, que engravidou logo em seguida.

Ao todo, o casal separou cerca de R$ 100 mil reais para pagar o parto, a hospedagem, a viagem e as despesas do dia a dia. Só o pacote que inclui o atendimento médico, o parto e as diárias de hospital custou US$ 12 mil (o equivalente a R$ 39.600).

Caroline viajou para Miami com a mãe no dia 5 de agosto, quando estava grávida de 32 semanas - tempo máximo permitido pela agência e também pelas companhias aéreas, para segurança da mãe e do bebê. Entrou no país com visto de turista e conseguiu carimbo para permanência por até seis meses. Lá, deu continuidade ao pré-natal.

Imprevisto

A empresária estava em Miami quando o furacão Irma - que deixou pelo menos 72 mortos na Flórida - atingiu a cidade. Por estar com a gestação avançada (37 semanas), ela poderia se abrigar em um hospital, mas não havia garantia de leitos disponíveis. "Apesar do medo, preferi ficar hospedada com mais conforto em um hotel construído para suportar furacões de categoria 5. Ao todo, foram oito dias nesse hotel, imprevisto financeiro que geralmente não calculam."

Apesar de ter tentado o parto normal, Vicente nasceu em 26 de setembro após cesariana, com 3,480 kg e 50 cm. A empresária estava com 39 semanas e 4 dias de gestação. "Nasceu e já chorou imediatamente. Todos os procedimentos foram feitos ao nosso lado e as enfermeiras explicavam tudinho. Foi tudo incrível, eu amei", afirmou.

Mãe, avó e bebê ficarão em Miami até 26 de novembro, quando Vicente terá dois meses e receberá a primeira vacina antes de viajar de avião. Maurício voltou ao Brasil no início dessa semana.

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