Nilton C. Tristão: a flexibilização da vida

No Brasil, debatemos o relaxamento social sem ao menos termos cumprido a quarentena de maneira eficiente

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01 JUN 2020Por Da Reportagem10h10
Foto: DIVULGAÇÃO
Por Nilton C. Tristão
 
Diálogo ocorrido no filme Guerra Mundial Z: “O problema é que as pessoas só acreditam quando acontece... não é estupidez, nem fraqueza... é a essência humana”. O novo coronavírus ainda se constitui em uma entidade de difícil assimilação para parte dos brasileiros, obrigados a conviver com a fragmentação decisória e posicionamentos governamentais contraditórios que transitam entre a demência homicida e a relutância pseudocientífica, transformando o combate ao patógeno em uma conferência sobre conveniências humanas, desconexas com a velocidade exponencial do contágio. 
 
As idas e vindas nos embates políticos e decretos burocráticos fizeram com que cada indivíduo em particular começasse a deliberar sobre o melhor a ser feito, obtendo como consequência prática o término extraoficial do recolhimento. 
 
Nos últimos dias, o comércio majoritariamente regressou às suas atividades e as pessoas voltaram às ruas, colocando em cheque a capacidade efetiva das instituições de definir a conduta de enfrentamento da crise, e possibilitando que a partir de agora a natureza reassuma o controle da disseminação virótica, impondo que a sobrevivência perante à pestilência fique circunscrita ao mundo dos mais fortes e melhores adaptados, ou seja, os indivíduos portadores de condições genéticas próprias ao universo dos assintomáticos. 
 
Segundo o ex-ministro da saúde, Nelson Teich, “... ninguém sabe exatamente quando será o pico da doença... cem anos depois da gripe espanhola, você está tendo exatamente o mesmo tipo de comportamento. O nosso sistema de informação não evoluiu o bastante...”. 
 
Em outros termos, descuidamos do isolamento coletivo diante da incapacidade de vislumbramos o porvir, exatamente quando se inicia a discussão a respeito da chegada da segunda onda, sendo que ainda não sabemos o suficiente da primeira. Na visão de Teich “a vida é feita de escolhas”, portanto, caso 2020 seja rememorado pelas gerações futuras como o ano dos sepultamentos em massa, as justificativas não poderão ser encerradas em um mero atendado ou inevitabilidade do destino, mas na esfera de inúmeras atitudes equivocadas envolvendo todos os tentáculos que permeiam a sociedade civil organizada. 
 
Em síntese, Portugal, um exemplo de nação que soube lidar com o controle da pandemia, atualmente vê a quantidade de ocorrências aumentando após o relaxamento da quarentena, uma opção por fazer a imunização comunitária controladamente até que a OMS e países associados consigam desenvolver a vacina ou conjunto de fármacos capazes de evitar óbitos em larga escala. 
 
No Brasil, debatemos o relaxamento social sem ao menos termos cumprido a quarentena de maneira eficiente. Definitivamente, chegou o momento dos estadistas retornarem de suas casas, e assumirem essa luta, que não é para gente pequena.
 
Nilton C. Tristão
Cientista Político – Opinião Pesquisa