Após fala enganosa de Salles, Greenpeace é alvo de dezenas de fake news

As peças de desinformação se baseiam em vídeo publicado por Salles no Twitter, que omite resposta do Greenpeace sobre sua ação na limpeza das praias, e na insinuação do ministro sobre a rota da embarcação Esperanza, que pertence à organização.

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26 OUT 2019Por Estadão Conteúdo16h31
O ministro Ricardo Salles.Foto: Antonio Cruz/Agência Brasil

Após duas declarações do ministro Ricardo Salles contra a organização não-governamental Greenpeace, diversos boatos surgiram nas redes sociais questionando a atuação da ONG na retirada do óleo no Nordeste e apontando suposto envolvimento no caso.

As peças de desinformação se baseiam em vídeo publicado por Salles no Twitter, que omite resposta do Greenpeace sobre sua ação na limpeza das praias, e na insinuação do ministro sobre a rota da embarcação Esperanza, que pertence à organização. Em ambos os casos, as declarações de Salles são enganosas e levaram à disseminação de boatos falsos sobre a ONG.

No primeiro caso, boatos afirmam falsamente que o Greenpeace não tem atuado no Nordeste. As peças de desinformação ganharam impulso após o ministro publicar um vídeo afirmando que a organização "explicou" por que não poderia ajudar na limpeza das praias. A gravação divulgada por Salles, no entanto, exibe apenas o trecho em que o porta-voz da organização, Thiago Almeida, afirma que o combate ao óleo "exige conhecimentos e equipamentos técnicos específicos". É omitido o trecho em que o porta-voz comenta que há, sim, a ação de voluntários da ONG no Nordeste.

Na publicação original, divulgada pelo Greenpeace no dia 18 de outubro, Almeida afirma que grupos de voluntários da organização estão atuando nos locais impactados ajudando na limpeza e colhendo depoimentos e imagens. No dia 17 de outubro, quatro dias antes de o vídeo publicado por Salles ir ao ar, a própria ONG publicou um texto sobre a visita de voluntários às praias afetadas de Fortaleza (CE) e São Luis (MA).

"Nossos voluntários no Maranhão e no Ceará também visitaram os locais impactados, conversaram com a população, colheram depoimentos, fizeram imagens, justamente para documentar tudo o que está sendo afetado, do meio ambiente às pessoas e a economia dessas regiões", afirmou Almeida.

Em nota publicada na segunda-feira, 21, após a divulgação do vídeo cortado pelo ministro, o Greenpeace afirmou que voluntários da organização estiveram nas limpezas das praias de Cupe, Maracaípe e Muro Alvo, no Pernambuco, e em Fortaleza, no Ceará, durante os dias 19 e 20 de outubro.

E o navio do Greenpeace, o Esperanza?

Outros boatos falsos publicados nas redes sociais insinuam que a embarcação Esperanza, do Greenpeace, poderia estar envolvida no derramamento de óleo na costa brasileira. A justificativa seria a rota marítima feita pelo navio nos últimos dias, que passou pela costa brasileira. As mensagens passaram a circular após o ministro Ricardo Salles publicar um tuíte com insinuação semelhante.

O Estadão Verifica cruzou a rota do navio Esperanza desde 1º de janeiro deste ano até a sexta-feira, 25 de outubro, e comparou com as datas registradas pelo Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) de cada localidade atingida pelo óleo no Norte e Nordeste do País.

O resultado mostra que o Esperanza navegou pela costa brasileira cerca de um mês depois das praias brasileiras terem sido atingidas por óleo. Segundo o registro do site Marine Traffic, que acompanha via GPS a localização em tempo real de embarcações pelo mundo, o navio do Greenpeace deixou o porto de Dégrad des Cannes, na Guiana Francesa, no dia 5 de outubro - na época, todos os Estados já tinham sido atingidos pelo óleo.

Além do fato de o Esperanza ter passado pela costa brasileira após o óleo já ter atingido as praias do Nordeste, estimativa feita a pedido da Marinha pelo Instituto Alberto Luiz Coimbra de Pós-Graduação e Pesquisa de Engenharia (Coppe) da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) aponta que o vazamento ocorreu em junho, entre 600 e 700 quilômetros da costa brasileira, na altura dos Estados de Sergipe e Alagoas.

Em junho, o Esperanza cruzava o Atlântico Norte, nas proximidades do Canal da Mancha, entre a Inglaterra e a França, e seguia em direção ao sul europeu, passando pela Espanha e por Portugal.

Atualmente, o navio do Greenpeace está em Montevidéu, no Uruguai, de onde seguirá rota para Buenos Aires, na Argentina. De acordo com a organização, a embarcação seguirá rumo à Antártida.

O Estadão Verifica entrou em contato com o Ministério do Meio Ambiente para pedir um posicionamento sobre as declarações enganosas de Salles. Em resposta, o órgão emitiu nota informando que "o navio do Greenpeace confirma que navegou pela costa do Brasil na época do aparecimento do óleo venezuelano, e, assim como seus membros em terra, não se prontificou a ajudar".

É preciso destacar, no entanto, que é falsa a afirmação que membros do Greenpeace não estejam atuando na costa brasileira, conforme verificação acima. E, como também verificado acima, o navio não circulou pela costa brasileira no momento do aparecimento do óleo, e sim depois. Os primeiros relatos de contaminação na costa brasileira foram registrados no final de agosto. O navio Esperanza chegou ao Brasil somente em outubro.

Caminho da verificação

Para verificar o boato sobre a ausência de atuação do Greenpeace no Nordeste, o Estadão Verifica consultou registros publicados no site da organização, além de entrar em contato com a entidade para saber sobre sua atuação no Nordeste. A reportagem também localizou a íntegra do vídeo com as respostas do porta-voz Thiago Almeida e identificou o momento do corte e posterior omissão no tuíte do ministro Ricardo Salles.

Para conferir o boato relativo ao navio Esperanza, a reportagem rastreou a rota da embarcação pelo site Marine Traffic entre os dias 1º de janeiro de 2019 a 25 de outubro de 2019. O Estadão Verifica cruzou as informações da localização diária do navio com os registros de óleo tabelados até o dia 23 de outubro pelo Ibama.

Estes boatos foram sinalizados para verificação por meio da parceria entre o Estadão Verifica e o Facebook. A Agência Lupa e o jornal Folha de S. Paulo também desmentiram este conteúdo.