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Valter Batista - Volta às aulas sem vacina é roleta russa!

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01 AGO 2020Por Da Reportagem08h13
Foto: DIVULGAÇÃO

Escola é o lugar em que tudo cabe e onde sempre se dá um jeitinho para que as coisas funcionem. É ambiente de aprendizagem, ao mesmo tempo em que se consolidam as relações sociais. Alunos mantêm amizades, constroem seus primeiros laços para fora de ambientes onde convivem mais com seus familiares, e ganham autonomia.

Os espaços escolares foram planejados para reproduzirem o modelo estrutural de outras instituições sociais, como hospitais e até os presídios. Já repararam como se parecem? Corredores largos, salas iguais, simetrias que irritam os mais criativos. Depois de prontas, se puser carteiras e portas, são escolas, se puser camas e balões de oxigênio, viram hospitais, mas se colocar grades e beliches, servem bem como presídios.

Nesta Pandemia essas convergências precisam ser ressaltadas. E me ajudam a ilustrar os problemas que estamos vivenciando em nossas escolas, pois ao menor sinal de crise, é a elas que se recorre. Já escrevi sobre isso anteriormente. Tem problema com desabrigados? É na escola que se alojam as pessoas. Haverá eleição? Abram as escolas para a votação. Precisa orientar a comunidade, chama na escola. Desnutrição? Reforça a merenda escolar. Pandemia de Covid-19? Fecha a escola!

Do mesmo modo que as escolas servem bem à propagação de boas medidas, servirá a qualquer tentativa de contaminar mais e mais pessoas, usando nossas crianças e adolescentes, além de professores e funcionários, como cobaias de uma experiência macabra, que chamo de projeto da necropolítica genocida do Estado.

Não há medidas de segurança que permitam um retorno às aulas. Na Baixada Santista estamos assistindo a um enorme descaso e um ataque ao bom senso e à verdade. Comemoram números que não existem, como a mentirosa notícia de que a maioria dos alunos da rede pública está sendo "atendida" pelo Ensino Remoto. Mentira! Em minhas aulas, em escola pública, este número não chega a 25%, e no Plantão de Dúvidas, usando ferramenta indicada pela equipe da escola para interagir ao vivo com os alunos, não atingi nem 5% dos estudantes.

A realidade é que faltam Políticas Públicas de inclusão digital. Equipamentos e acesso à internet. Capacitação de professores, que estão sendo massacrados pelo modelo de ensino remoto, sem que haja resultado pedagógico decente. Negam que estamos em meio a um ano praticamente perdido para grande parte dos estudantes que estão desassistidos.

Em vez de investirem energia em melhorar este sistema educacional, momentâneo, mas necessário, estão se estruturando para chamar para a sala de aula os alunos e professores, expondo vidas ao risco da doença que mais assusta nossa geração. Inadmissível tudo isso. Surreal!

As escolas são o mesmo lugar em que faltavam carteiras e cadeiras, onde os banheiros não tinham papel higiênico, onde água também falta, em que a limpeza era precária, muitas vezes, onde apenas a vassoura era passada no chão, e um pano úmido quase nunca se via. As escolas não estavam preparadas para serem um lugar exemplar no quesito higienização. Agora os gestores acreditam que conseguem lidar com estes problemas de modo a solucioná-los? Eu não acredito nisso e vou além.

Os pais de crianças e adolescentes, bem como os trabalhadores da educação, não deveriam estar sendo manipulados para aceitarem essa posição. Não há como evitar os riscos desta doença sem uma vacina. O ideal neste momento é que tenhamos bom senso, e defendamos as vidas das pessoas. Que mantenhamos o distanciamento, e que as aulas se mantenham à distância também, mas com investimento urgente para ampliar o acesso de quem está excluído, levando o que falta para quem precisa.

E com a vacina chegando, aí sim, voltarmos às salas de aula, imunizados e com maior segurança, corrigindo as falhas e recuperando o que precisa, para que ninguém fique para trás. Fazer algo diferente disso é optar pela roleta russa, na cabeça de quem mais devia estar sendo protegido, nossos filhos e filhas!

Valter Batista, professor e especialista em gestão pública