Transparência à vista: informações que geram valor, stakeholders em foco (Parte 2)

Uma das justificativas centrais para esse potencial é a atuação do Comitê Brasileiro de Pronunciamentos de Sustentabilidade

O anúncio reforça o protagonismo brasileiro na agenda de sustentabilidade logística

Maturidade crescente da governança no Porto de Santos abre espaço para um novo salto qualitativo na cultura do relato | Divulgação/Porto de Santos

O potencial do Brasil para integração das informações financeiras e não financeiras nos relatórios se destaca pelo seu contexto social plural e pelas demandas de um ambiente institucional diversificado. Uma das justificativas centrais para esse potencial é a atuação do Comitê Brasileiro de Pronunciamentos de Sustentabilidade (CBPS), responsável por incorporar ao país as normas internacionais IFRS S1 e S2 que, no Brasil, passam a ser denominadas CBPS 01 e CBPS 02.

O país foi o primeiro no mundo a adotar oficialmente essas normas como base para a regulação local, graças a iniciativas conjuntas da Comissão de Valores Mobiliários (CVM), Conselho Federal de Contabilidade (CFC) e CBPS, que abriram audiências públicas, engajaram múltiplos stakeholders e estabeleceram marcos normativos para adoção voluntária desses padrões.

O avanço dos frameworks impulsionou progresso notável em cultura de relato,  inclusive entre operadores portuários e terminais, que passam a publicar relatórios anuais, integrar aspectos ESG a seus modelos de gestão e buscar certificações externas e asseguração independente. Nos últimos anos, verificou-se crescimento expressivo do número de agentes portuários do Porto de Santos adotando relatórios integrados ou de sustentabilidade, participando de premiações, benchmarking e projetos colaborativos, apoiados pela dinâmica da comunidade e pelo ambiente regulatório internacional em evolução.

Parte desse avanço também se deve à disseminação de boas práticas, ao compartilhamento de experiências e à promoção de capacitação em metodologia de avaliação de dupla materialidade. O desafio, contudo, persiste no engajamento efetivo de stakeholders durante o processo: mobilizar diferentes elos da cadeia, garantir representatividade e qualidade dos dados, definir prioridades comuns e traduzir essas etapas em relatórios significativos exige maturidade coletiva e processos participativos estruturados.

A maturidade crescente da governança no Porto de Santos abre espaço para um novo salto qualitativo na cultura do relato: ultrapassar o reporte individualizado e evoluir para um relato de “escopo coletivo”, capaz de capturar toda a riqueza, desafios e conquistas da comunidade portuária como um conjunto.

O Manifesto ESG do Porto de Santos, desde sua gênese, já se posiciona como instrumento facilitador dessa ambição. Por reunir de forma inédita a Autoridade Portuária, terminais, empresas privadas, prefeituras, sociedade civil e academia sob um hub de pactuação colaborativa, ao oferecer um ambiente estruturado para levantamento conjunto de materialidade.

Ao avançar para essa cultura de relato de “escopo coletivo”, o Porto de Santos reforça que a sustentabilidade e a transparência não podem ser responsabilidade exclusiva das grandes organizações. A necessidade de divulgação detalhada da cadeia de valor, imposta a empresas de maior porte pelas novas regulamentações e pelos compromissos internacionais, faz com que pequenas empresas e companhias de capital fechado, ainda que não estejam sob exigência regulatória direta, precisam alinhar suas práticas e, caso seja aplicável, desenvolver relatórios integrados, considerando suas realidades. 

Isso porque a ausência de transparência nas informações de sustentabilidade por parte desses parceiros, pode haver riscos reais à conformidade e à reputação das grandes empresas, comprometendo o atendimento às exigências de clientes internacionais, reguladores e investidores.

Ao consolidar a cultura de reporte integrado e de escopo coletivo via o Manifesto ESG, o Porto de Santos sinaliza uma transformação paradigmática: de relatos fragmentados para uma visão comunitária, capaz de traduzir desafios, conquistas e impactos socioeconômicos da comunidade portuária de forma coesa e estratégica. Esse esforço eleva o Porto de Santos ao protagonismo global, inspirando outros complexos logísticos a adotar o reporte coletivo como suporte para transparência radical, inovação contínua e desenvolvimento sustentável compartilhado.

Transparência à vista: informações que geram valor, stakeholders em foco (Parte 1)

O movimento, iniciado pelo Global Reporting Initiative (GRI) nos anos 1990, estabeleceu padrões para a divulgação de informações ambientais

Com o tempo, novas exigências e focos setoriais levaram ao desenvolvimento de frameworks específicos, como o Sustainability Accounting Standards Board

Com o tempo, novas exigências e focos setoriais levaram ao desenvolvimento de frameworks específicos, como o Sustainability Accounting Standards Board | Akil Mazumder/Pexels

A adoção da metodologia de relato integrado por organizações modernas, inclusive no setor portuário, marca uma transição significativa na forma como empresas comunicam não apenas desempenho financeiro, mas também impactos socioambientais e de governança. Muito além de um instrumento de divulgação, o relatório integrado, resultante desse processo, representa uma poderosa ferramenta de prestação de contas e transparência, fundamental para fortalecer a confiança de stakeholders e consolidar a reputação institucional.

Os relatórios integrados transformam informações dispersas em uma visão compreensiva do modelo de negócios, suas estratégias, riscos, oportunidades e as formas pelas quais a organização cria valor de maneira sustentável. Esse tipo de reporte permite que investidores, clientes, comunidades e reguladores avaliem de forma crítica não só os resultados empresariais, mas o compromisso real da organização com responsabilidade social, ética e desenvolvimento de longo prazo.

O movimento, iniciado pelo Global Reporting Initiative (GRI) nos anos 1990, estabeleceu padrões para a divulgação de informações ambientais, sociais e de governança (ESG), promovendo transparência, comparabilidade e credibilidade nos relatórios das organizações. O GRI serviu como base para a formação de uma cultura de reporte estruturado, voltada para a materialidade dos temas reportados e para o engajamento multistakeholder, destacando como a organização impacta o mundo ao seu redor.

Com o tempo, novas exigências e focos setoriais levaram ao desenvolvimento de frameworks específicos, como o Sustainability Accounting Standards Board (SASB), referência para informações ESG materialmente relevantes para investidores, com métricas comparáveis por setor econômico. O SASB, agora integrado à International Sustainability Standards Board (ISSB), contribui para padronizar relatórios em setores como o portuário, onde riscos e oportunidades de sustentabilidade são cada vez mais centrais para o negócio.

Na esteira dos avanços europeus, os recentes European Sustainability Reporting Standards (ESRS), lançados sob a Corporate Sustainability Reporting Directive (CSRD), elevaram a régua do reporte: desde 2024, empresas de grande porte na União Europeia (e cadeias globais impactadas pelo bloco) devem atender critérios ainda mais rigorosos, abordando questões como dupla materialidade (impacto social/ambiental e financeiro) e fornecendo informações detalhadas, auditáveis e estruturadas.

O chamado “efeito Bruxelas” se faz sentir em cadeias internacionais como a do Porto de Santos, que já vê seus principais terminais e operadoras acelerando a adoção de tais práticas para atender clientes e requisitos logísticos internacionais.

Em nível global, o ISSB publicou os padrões IFRS S1 e S2, que agora são referência para relatórios obrigatórios de sustentabilidade e riscos climáticos para empresas listadas em bolsas de valores, incluindo o mercado brasileiro, que já prepara suas companhias para a adoção dessas normas.

O IFRS S1 trata de divulgação de sustentabilidade amplos; o S2, foca no reporte climático, ambos fortalecendo a governança e reduzindo assimetrias informacionais entre empresas e investidores.

Outro pilar fundamental é a asseguração independente da informação reportada, seja na modalidade limitada (checagem de plausibilidade e conformidade com o framework) ou razoável (análise aprofundada e validação de controles). A asseguração é o antídoto mais eficiente contra greenwashing e transforma resultados intangíveis em evidências socioeconômicas consistentes, reforçando a confiança dos stakeholders.

Portanto, a adoção do relato integrado representa um avanço crucial para organizações que buscam alinhar transparência, responsabilidade e geração de valor para seus stakeholders. As práticas consolidadas ao longo dos anos sobre reporte e transparência pavimentaram o caminho para que novas metodologias e padrões globais ampliem ainda mais a confiança e a qualidade da informação divulgada.