Nilton Cesar Tristão - O retorno das galinhas verdes

A classe média não está nas ruas vociferando palavras de ordem desconexas a favor de Jair Bolsonaro por isso se localizar no interior de seu âmago reacionário, mas porque lhe foi negada a condição de permanecer adormecida em sua alienação contemplativa

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04 MAI 2021Por Artigo06h38
Nilton C. Tristão, cientista políticoNilton C. Tristão, cientista políticoFoto: DIVULGAÇÃO

Há 83 anos, as milícias de Plínio Salgado atacavam o palácio Guanabara na tentativa de derrubar o governo de Getúlio Vargas, ação infrutífera que culminou com morte e prisão dos invasores e determinou o fim do integralismo no Brasil. Uma das principais características desse movimento referia-se ao histrionismo exacerbado e enaltecedor das concepções de pátria, família e Deus; igualmente, vale a pena rememorar que o símbolo dos camisas negras era a figura simpática da anta, a qual, inclusive, representa perfeitamente os contornos psicológicos dos que ocuparam os espaços públicos no último dia primeiro de maio para professar suas crenças pseudo conservadoras. 

Para a “AIB”, o inimigo a ser combatido era a antiga URSS, que através de documento forjado pelo capitão Olímpio Mourão Filho, Plano Cohen, afirmava que o Komintern russo possuía planos em andamento para a implantação do comunismo em solo canarinho - triste processo dialético em que a tragédia e a farsa se sucedem em intervalos transitórios. 

Doravante, as semelhanças encontram o seu fim, visto que idealistas como Plínio Salgado e Plínio Corrêa de Oliveira, nunca conseguiram chegar efetivamente ao poder, em decorrência da direita menos “babona” e dos liberais mais esclarecidos sempre terem os impedido, sendo que nos golpes de Estado ocorridos no período republicano, os ideários fascistas ou xenófobos jamais assumiram a atribuição de políticas permanentes de Estado. 

Mas nos tempos atuais, através do fenômeno do bolsonarismo, a realidade assume outra feição, uma vez que logrou êxito em associar sua base de sustentação formada por parcelas de uma classe média inculta, que abandonou momentaneamente os desejos de reformar a residência, trocar de carro, frequentar bons restaurantes e viajar com a família para a Disneylândia, à militância política obscurantista e ao exercício concreto do poder executivo nacional e demais instituições que orbitam ao redor da caneta presidencial. 

Aqui, ao contrário, não se trata de demonizar a pequena burguesia, mas de constatar que nos últimos cem anos sua função histórica não esteve associada ao protagonismo político ou à formulação de doutrinas ideológicas. 

Da mesma forma, precisamos reconhecer que os governos do pós 1985 construíram uma dívida imensa com esse segmento, depauperando gente que detinha a função de servir como “lubrificante” para o equilíbrio social, impedindo que fissuras estruturais comprometessem todo o sistema. 

A classe média não está nas ruas vociferando palavras de ordem desconexas a favor de Jair Bolsonaro por isso se localizar no interior de seu âmago reacionário, mas porque lhe foi negada a condição de permanecer adormecida em sua alienação contemplativa. Lembremos que em passado recente, a frase preferida da pequena burguesia era a de que futebol, religião e política não se discutiam, e a vida seguia o ritmo perfeito sob a impassividade de Narciso.

Portanto, o ódio não será ceifado dos corações e mentes, as feridas cicatrizadas e a paz restabelecida sem que a classe média seja reconduzida ao seu local de origem, ou seja, a uma existência destinada a usufruir da efemeridade do cotidiano, tomada por preocupações fugazes e movida por uma concórdia alheia aos fatos, restabelecendo dessa forma, a normalidade salutar a todos nós.

Nilton Cesar Tristão, Cientista Político
Opinião Pesquisa & GovNet