Nilton Cesar Tristão - A cultura do ódio em nome de Deus

Em todas as ocasiões quando as pretensões envolvendo o poder e dogmas religiosos unem-se em simbiose, as resultâncias são nefastas e agora não será diferente

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11 MAI 2021Por Artigo06h40
Nilton C. Tristão, cientista políticoNilton C. Tristão, cientista políticoFoto: DIVULGAÇÃO

Tanto no filme “O Ovo da Serpente” de Ingmar Bergman lançado em outubro de 1977, como no documentário o “Triunfo da Vontade” de Leni Riefenstahl estreado em março de 1935, podemos observar dois momentos distintos, porém interligados da história moderna alemã. O primeiro diz respeito à República de Weimar (1919 a 1933) que edificou as bases subjacentes ao inconsciente coletivo que levaria à aderência às orientações nazistas, e no segundo instante temos as manifestações propagandistas que elevaram Adolf Hitler ao contexto de líder mítico fadado a conduzir a raça ariana à glória. De acordo com o pai da sociologia, o filósofo Émile Durkheim, a sociedade funciona na conformação de um corpo biológico, onde os indivíduos representam as células que compõem o todo e na medida em que o organismo adoece, o tecido comunitário passa a apresentar sintomas de esquizofrenia através das exteriorizações de alucinações e delírios coletivos. Isso aparenta ser familiar no presente universo simbólico nacional; parafraseando o romancista irlandês Oscar Wilde, “a vida imita a arte muito mais do que a arte imita a vida...”. Portanto, no futuro próximo, quando superarmos a crise que fragmentou os processos cognitivos em peças que desconectaram os vasos comunicantes mentais de sua fluidez racional, poderemos buscar a compreensão de determinadas expressões típicas do bolsonarismo: 1) De que maneira a hidroxicloroquina tornou-se um elo ideológico entre o capitão que despreza preceitos científicos e desconhece protocolos sanitários com os seus seguidores? 2) Como Roberto Jefferson consegue assumir o comportamento de cavaleiro templário, que incita plateias frenéticas a pegar em armas para cumprir os desígnios divinos e impedir que os infiéis reconquistem a terra santa? 3) Por qual motivo, depois de séculos de lutas cidadãs, o estado democrático de direito e as conquistas iluministas são relativizadas ou desprezadas? Em síntese, o bolsonarismo tomou para si as características de fenômeno político que mantém a corda esticada ao limite da fissura, baseado na convicção que seus membros cumprem a vontade perfeita de Deus, que deseja a salvação e purificação das instituições de Estado. Contudo, em todas as ocasiões quando as pretensões envolvendo o poder e dogmas religiosos unem-se em simbiose, as resultâncias são nefastas e agora não será diferente. Pela primeira vez, um governante brasileiro está sendo investigado pela procuradoria do TPI (Tribunal Penal Internacional), pelo possível genocídio contra os povos indígenas; a CPI da Covid avança na apuração de crimes cometidos pelo executivo federal na gestão ao combate à pandemia, e a Suprema Corte aperta o cerco contra membros intransigentes e antidemocráticos. Ou seja, Bolsonaro converteu-se em um governante isolado, com dificuldades, caso seja necessário, até mesmo para obter asilo político, já que todos os todos os chefes de Estado de países afora, mesmo aqueles que orbitam o campo da direita, procuram cultivar distância segura de nosso presidente. Para Jair Messias, permanecer a partir de 2022 na chefia da nação reduziu-se a uma questão de sobrevivência política e da liberdade de ir e vir. Portanto, na condição de lobo acuado que lidera uma matilha fundamentalista, as consequências podem acarretar o aumento do stress social e a perturbação da ordem pública. Que o criador dê o discernimento para que o povo entenda o que realmente está em jogo.     

Nilton Cesar Tristão, Cientista Político
Opinião Pesquisa & GovNet