Nilton C. Tristão - Os outros

Os domínios das ideologias radicais conduzem inexoravelmente as distopias profundas, na medida em que edificam horizontes cinzentos e opacos

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27 SET 2021Por Artigo11h36
Nilton César Tristão, cientista políticoNilton César Tristão, cientista políticoFoto: DIVULGAÇÃO

No ano de 2001 estreou nos cinemas a película “Os Outros” de Alejandro Amenábar, que contava com o protagonismo da bela estrela australiana Nicole Kidman. A produção foi ambientada na Ilha de Jersey durante a segunda guerra mundial, retratando a figura de uma mulher que vivia em uma mansão antiga aguardando a volta do marido que estava nos campos de batalhas. 

A trama se desenrola por narrativas aonde indivíduos encarnados e desencarnados habitam o mesmo espaço físico, mas em dimensões não convergentes, porém, conectadas. O desdobramento inusitado do roteiro situa-se nas seguintes reflexões impostas ao espectador - afinal, quem são os personagens que efetivamente representam os fantasmas no desencadeamento da trama? Quais são os elementos que outorgam a definição existencial das verdadeiras assombrações? O outro deve ser tratado na qualidade de aberração intrínseca em si mesma ou compreendido como a extensão de nossa própria essência natural? 

Essas reflexões podem ser transpostas ao que experimentamos em “real time” na medida em que observamos o recrudescimento comportamental de uma classe média branca, inculta, idólatra e fascista, convicta que a eliminação e subjugação do dessemelhante significa o caminho mais curto à felicidade coletiva e a redenção social. 

Podemos propor diversos exemplos - como no caso do Brasil, o lugar em que o bolsonarismo assumiu o vilipêndio sistemático da bandeira nacional como símbolo de uma pretensa superioridade moral, contudo, desprovido de compaixão com o padecimento dos vitimados pelas atrocidades perpetradas pelo atual governo; na Hungria, o primeiro-ministro Viktor Orbán defende o aumento dos índices de natalidade entre as famílias cristãs para contrapor-se a quantidade de mulçumanos que acham-se residindo em solo europeu, além de promover leis que visam assimilar à homossexualidade a pedofilia; os ultranacionalistas da Polônia estão perseguindo historiadores que revisam o advento do holocausto, como também, o presidente Andrzej Duda, sancionou a lei que ampliará as dificuldades aos judeus que buscam recuperar os bens usurpados por nazistas; nos EUA a concepção de mundo trumpista permanece latente entre parcela considerável da população, inclusive facultando as cenas de policiais a cavalos açoitando refugiados haitianos à beira do Rio Grande na fronteira com o México; em El Salvador a atuação de Nayib Bukele assemelha-se a de um justiceiro populista que transita a margem do Estado Democrático de Direito.

Em outro extremo, também poderíamos citar as práticas segregacionistas recorrentes nas inúmeras Repúblicas Islâmicas, ou a política chinesa que confina muçulmanos uigures em campos de reeducação cultural, entre tantas outras. 

Todavia, a gravidade das circunstâncias encontra-se na incapacidade do universalismo em formular concepções baseadas na inclusão civilizatória das diferenças, e encampar as lutas libertárias eficazes em oportunizar o modelo de progresso que unificará a espécie ao renegar os instintos primários e predatórios. 

Os domínios das ideologias radicais conduzem inexoravelmente as distopias profundas, na medida em que edificam horizontes cinzentos e opacos. Não se enganem, os obscurantistas moram próximos e estão dispostos a impor sob o mantra de “Deus, família, pátria e propriedade” os ideários que rejeitam a existência do outro na condição ser pensante e portador de espírito soberano. “Para o triunfo do mal só é preciso que os bons homens não façam nada”. (Edmund Burke).

* Nilton C. Tristão, cientista político