Nilton C. Tristão: Os milionários da Covid

Teremos que criar uma nova categoria para tipificar os crimes hediondos, cometidos por criaturas infames que se locupletaram à custa de uma sociedade ofegante que clama por oxigênio

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14 JUN 2020Por Da Reportagem10h10
Foto: DIVULGAÇÃO

Por Nilton C. Tristão

Estamos nos tornando referência mundial pela forma que temos abordado o enfrentamento ao novo coronavírus, o evento natural que gerou a pior crise no sistema nacional de saúde do último século, enquanto o brasileiro está há três meses submetido implacavelmente a perturbações psicológicas causadoras de medo, ansiedade, stress e privações, derivadas do descaso presidencial com a gravidade do surto e da ineficiência de decretos com posteriores revogações assinados por governadores e prefeitos na tentativa de evitar o avanço do SARS-CoV-2. 

Nesse momento, assistimos estupefatos ao surgimento de uma casta de “empreendedores” que reconheceram na excepcionalidade dos fatos a oportunidade para fazer a grana fácil crescer na mesma velocidade exponencial da transmissão viral. Desde a edição da MP que alterou a Lei 13.979 de 2020, possibilitando que empresas impedidas de fornecerem às administrações públicas pela prática de irregularidades pudessem voltar a supri-las com serviços, equipamentos e insumos voltados à contenção da pandemia, sem que passassem pelos crivos de certames licitatórios, percebemos que o palco para a farra do boi estava montado. 

Rapidamente o tema tornou-se amplamente debatido nos editoriais policiais e os indícios originaram o surgimento de inúmeras investigações da Policial Federal e Civil, tais como as operações Quimera, Assepsia, Dinheiro sujo, Para Bellum e Dúctil, que possuem como objeto o desvio de dinheiro público oriundo de fraudes perpetradas pelas contratações emergenciais, tipificadas como associação criminosa, lavagem de dinheiro, corrupção passiva e ativa, entre outros ilícitos. A partir dessas circunstâncias, secretários e servidores públicos estão sendo presos e governadores a caminho de perderem os mandatos. 

Se nos EUA a luta contra o racismo teve como lema “eu não consigo respirar”, advindo da frase proferida por George Floyd enquanto era asfixiado por um policial em Minneapolis, aqui poderíamos utilizá-la no contexto da virulência pandêmica, ou seja, “eu não consigo respirar, porque roubaram o meu respirador”.  

Talvez seja esse o maior crime de lesa-pátria da história do país, e teremos que criar uma nova categoria para tipificar os crimes hediondos, cometidos por criaturas infames que se locupletaram à custa de uma sociedade ofegante que clama por oxigênio. As consequências serão de grande amplitude, uma vez que a malversação do erário público ultrapassou todos os limites e adentrou diretamente nas residências, desorganizando a vida das famílias, no campo da saúde por óbitos e sequelas ou na dimensão econômica através da perda de negócios, renda e emprego. 

Pelo que tudo indica, na esfera da opinião pública presenciaremos os prefeitos em busca da reeleição pagando o preço da fúria popular, justamente por serem os primeiros a se posicionar diretamente na linha de tiro.

Nilton C. Tristão
Cientista Político - Opinião Pesquisa