Nilton C. Tristão - O colapso da razão

Os descaminhos das disputas políticas nos colocaram frente à primazia da “sorte”, no aguardo de que a vontade do meio ambiente conspire a nosso favor e restabeleça a normalidade tão aguardada

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20 ABR 2021Por Artigo06h40
Nilton C. Tristão, cientista políticoNilton C. Tristão, cientista políticoFoto: DIVULGAÇÃO

Como todos sabem, a partir de 26 de fevereiro de 2020, com a chegada definitiva do sars-cov-2 em terras brasileiras, iniciou-se a maior crise de saúde pública dos últimos cem anos. Ao ultrapassarmos a barreira que supera o limite de 370 mil óbitos oriundos de uma única pestilência, vivenciamos as decorrentes sequelas que estão fragilizando os fundamentos econômicos, como também, agravando as condições de vulnerabilidade comunitária.

Entretanto, como “desgraça pouca é bobagem”, adentramos no pior declínio de bom senso e capacidade de discernimento coletivo desde os idos de 1964. Quis o acaso, para o infortúnio tupiniquim, nos colocar perante dilemas ensandecidos que turvam a consciência e enevoam o entendimento daquilo que importa, ou seja, qual é o preço que realmente estamos dispostos a suportar pelas ações que nos levem à superação do flagelo? Questionamento de difícil resposta, pois praticamente esgotamos a possibilidade de edificar qualquer consenso minimamente coerente.

No caso do estado de São Paulo, situamo-nos divididos entre um governador que afirma agir segundo os ditames científicos no combate à proliferação do vírus, mas que cede às pressões de líderes religiosos que teimam em reabrir seus templos, mesmo defronte ao falecimento de inúmeros “irmãos na fé” vitimados pela covid-19; por outro lado, observamos a militância ativa do presidente da república que vê na pandemia uma mera ocorrência de seleção natural, algo inerente à história da vida, que detém o objetivo de depurar a espécie por meio da eliminação dos indivíduos mais fracos do rebanho, uma verdadeira reforma da previdência social e alívio nas contas do INSS.

Diante deste contexto, e devido aos leitos hospitalares terem chegado ao confortável índice de 85% de ocupação, ordinariamente experimentaremos outra inflexão nas normas de imposição ao distanciamento interpessoal. Pois bem, a meu ver, nesse cenário teremos duas possibilidades: 1ª) tal como no surto da gripe espanhola de 1918 a 1919, o patógeno percorrendo a sua terceira onda perderá força e logo recuperaremos a estabilidade sanitária; 2ª) com a reclassificação do Plano São Paulo, as possíveis mutações genéticas do sars-cov-2, lentidão na imunização através da vacinação e a proximidade do inverno, o coronavírus ganhará ímpeto e promoverá novos colapsos na rede de saúde pública e privada.

Simples assim, as atitudes geram consequências. Pois desde que fomos expostos ao evento de proporção global, deveríamos contar com coordenação nacional e verticalizada; todavia, foram os prefeitos que efetivamente assumiram o papel de formuladores nas políticas de contenção viral, desprovidos de condições materiais, humanas e logísticas para exercerem essa tarefa. Aliás, em 100% dos casos foram alijados de barreiras físicas que evitassem a disseminação do contágio.

Os descaminhos das disputas políticas nos colocaram frente à primazia da “sorte”, no aguardo de que a vontade do meio ambiente conspire a nosso favor e restabeleça a normalidade tão aguardada. Em um mundo onde a prudência e os critérios baseados na lógica transformaram-se em artigos restritos, nos sobra torcer para que o universo regido por movimentos aleatórios produza os melhores resultados.

Nilton Cesar Tristão, Cientista Político
Opinião Pesquisa & GovNet