Nilton C. Tristão – O colapso da razão

Os descaminhos das disputas políticas nos colocaram frente à primazia da “sorte”, no aguardo de que a vontade do meio ambiente conspire a nosso favor e restabeleça a normalidade tão aguardada

Como todos sabem, a partir de 26 de fevereiro de 2020, com a chegada definitiva do sars-cov-2 em terras brasileiras, iniciou-se a maior crise de saúde pública dos últimos cem anos. Ao ultrapassarmos a barreira que supera o limite de 370 mil óbitos oriundos de uma única pestilência, vivenciamos as decorrentes sequelas que estão fragilizando os fundamentos econômicos, como também, agravando as condições de vulnerabilidade comunitária.

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Entretanto, como “desgraça pouca é bobagem”, adentramos no pior declínio de bom senso e capacidade de discernimento coletivo desde os idos de 1964. Quis o acaso, para o infortúnio tupiniquim, nos colocar perante dilemas ensandecidos que turvam a consciência e enevoam o entendimento daquilo que importa, ou seja, qual é o preço que realmente estamos dispostos a suportar pelas ações que nos levem à superação do flagelo? Questionamento de difícil resposta, pois praticamente esgotamos a possibilidade de edificar qualquer consenso minimamente coerente.

No caso do estado de São Paulo, situamo-nos divididos entre um governador que afirma agir segundo os ditames científicos no combate à proliferação do vírus, mas que cede às pressões de líderes religiosos que teimam em reabrir seus templos, mesmo defronte ao falecimento de inúmeros “irmãos na fé” vitimados pela covid-19; por outro lado, observamos a militância ativa do presidente da república que vê na pandemia uma mera ocorrência de seleção natural, algo inerente à história da vida, que detém o objetivo de depurar a espécie por meio da eliminação dos indivíduos mais fracos do rebanho, uma verdadeira reforma da previdência social e alívio nas contas do INSS.

Diante deste contexto, e devido aos leitos hospitalares terem chegado ao confortável índice de 85% de ocupação, ordinariamente experimentaremos outra inflexão nas normas de imposição ao distanciamento interpessoal. Pois bem, a meu ver, nesse cenário teremos duas possibilidades: 1ª) tal como no surto da gripe espanhola de 1918 a 1919, o patógeno percorrendo a sua terceira onda perderá força e logo recuperaremos a estabilidade sanitária; 2ª) com a reclassificação do Plano São Paulo, as possíveis mutações genéticas do sars-cov-2, lentidão na imunização através da vacinação e a proximidade do inverno, o coronavírus ganhará ímpeto e promoverá novos colapsos na rede de saúde pública e privada.

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Simples assim, as atitudes geram consequências. Pois desde que fomos expostos ao evento de proporção global, deveríamos contar com coordenação nacional e verticalizada; todavia, foram os prefeitos que efetivamente assumiram o papel de formuladores nas políticas de contenção viral, desprovidos de condições materiais, humanas e logísticas para exercerem essa tarefa. Aliás, em 100% dos casos foram alijados de barreiras físicas que evitassem a disseminação do contágio.

Os descaminhos das disputas políticas nos colocaram frente à primazia da “sorte”, no aguardo de que a vontade do meio ambiente conspire a nosso favor e restabeleça a normalidade tão aguardada. Em um mundo onde a prudência e os critérios baseados na lógica transformaram-se em artigos restritos, nos sobra torcer para que o universo regido por movimentos aleatórios produza os melhores resultados.

Nilton Cesar Tristão, Cientista Político
Opinião Pesquisa & GovNet