Nilton C. Tristão - Bolsonaro, Jones, Manson & Applewhite

Esses indivíduos possuem em comum a capacidade de desenvolver simbologias que afastam os seus adeptos do raciocínio crítico

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13 SET 2021Por Artigo12h04
Nilton César Tristão, cientista políticoNilton César Tristão, cientista políticoFoto: DIVULGAÇÃO

“Entendam, eu não estou preso aqui com vocês, vocês estão presos aqui comigo”. (Rorschach, Watchmen - Alan Moore). Quais são os elementos comportamentais e linguísticos que convergem entre as figuras de Jair Bolsonaro, Jim Jones, Charles Manson e Marshall Applewhite? 

Como todos sabem, o Reverendo Jim Jones foi o causador do suicídio por envenenamento de 918 membros do próprio culto na cidade de Jonestown/Guiana em 1978; Charles Manson em 1960 liderou a seita conhecida como “família Manson”, responsável por diversos roubos e assassinatos, inclusive, aquele que culminou na morte da atriz Sharon Tate, grávida de oito meses do cineasta Roman Polanski; o líder religioso Marshall Applewhite foi responsável pelo suicídio coletivo de 39 pessoas em 1997, gente que acreditava que a passagem do cometa Hale-Bopp viria acompanhada de uma nave espacial que os transportaria para um destino empíreo. 

Esses indivíduos possuem em comum a capacidade de desenvolver simbologias que afastam os seus adeptos do raciocínio crítico, ou seja, o axioma que detém a finalidade de possibilitar a interligação do ser existencial com a realidade concreta e palpável. “As principais características do sectarismo são: o bloqueio do pensamento de base e a doutrinação absoluta que escorre do topo. É proibido raciocinar. Discordar é algo profano. O que vem do líder é verdade suprema, ainda que irracional ou insano.” (Adriano Peralta).

Em outros termos, quando o princípio do contraditório começa a ser sufocado pelo impedimento de divergências, o comportamento tribal ganha relevância sobre o cosmopolita. Com base nessa conjuntura, signos e referências assumem interpretações sui generis diante do escopo de corroborar as crenças que unem os membros inter-relacionados, onde hábitos comuns são transmutados em atitudes peculiares que avançam na forma de agrupamentos assumindo características típicas de facções, lógica idêntica à demarcação de campos de atuação, que provem a sensação de superioridade moral e a legitimidade para alastrar a infâmia. 

Essas identificações de grupo promovem o senso de identidade e pertencimento, que definem a nós mesmos e aos outros, como também aumentam a autoestima e senso de status. Os objetivos competitivos e diferenças inerentes são fundamentais para a geração e evolução de estereótipos sociais – edificação de rivalidades, teorias de superioridade e a justificativa para a marginalização do outro. Sob uma abordagem patológica, os movimentos de massa tipicamente populistas ou de seitas podem ser constituídos a partir da loucura ou devaneios de um protagonista que posteriormente são convertidos em delírios compartilhados. 

Bolsonaro, Jones, Manson e Applewhite, utilizaram a audácia carismática como mecanismo para ocultar a fraqueza. “A audácia descarada torna a história mais verídica, distraindo a atenção de suas incoerências”. Além disso, exploraram a relutância daqueles que se acostumaram com as regras do jogo e que cultivam a dificuldade intrínseca em lidar com o imponderável e imprevisível. 

A demonstração de coragem exacerbada transmite a sensação de poder e grandeza. A confusão entre o real e o ilusório são elementos fundamentais no processo de manipulação do inconsciente coletivo. Quem em sã consciência levaria crianças para serem executadas em câmaras de gás, sem que houvesse uma forte alteração de perspectiva entre o certo e o errado? 

Até o dia 07 de setembro, “A guerra cultural bolsonarista deu um passo além. Deixou de ser apenas um instrumento para a disputa de narrativas... Está se transformando em uma seita, numa forma de vida”. (Professor João Cezar Castro Rocha). Esperamos que esse delírio coletivo tenha se exaurido e chegado ao seu término.

* Nilton César Tristão, cientista político