Nilton C. Tristão - A história em tempo real

Em nosso país, a CPI da covid explora circunstâncias que, no caso de serem comprovadas como verdadeiras, deixariam corado o próprio Josef Mengele

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24 MAI 2021Por Artigo16h16
Nilton César Tristão, cientista políticoNilton César Tristão, cientista políticoFoto: DIVULGAÇÃO

O pior temor para a humanidade em 31/12/2020 era a possibilidade de que o ano porvindouro pudesse ser pior do que aquele que estávamos nos despedindo. A percepção de que entraríamos em uma segunda onda na pandemia do novo coronavírus com elevado nível de letalidade, ainda era incerta. Naquele momento, a multiplicidade dos países havia compartilhado, por quase doze meses ininterruptos, as consequências do estresse coletivo e globalizado. Contudo, refutando o aforismo tiririquiano: sim, tudo ponde piorar. Pois desde o prelúdio em âmbito internacional de 2021, observamos atônitos a turba de apoiadores do movimento QAnon, incitados por Donald Trump a invadir o Capitólio, sede do Congresso Americano, num gesto que beirava a surrealidade. Na vizinha Colômbia, vimos o acirramento da violência urbana e os projetos de reformas constitucionais do Governo de Iván Duque, promoverem os maiores distúrbios populares desde a época do Bogotazo em 09/04/1948. Ao norte, as tensões entre a Venezuela e Guiana pela disputa do território Essequibo, entre o rio Cuyuni e o rio Essequibo, ganharam novo ímpeto com acusações de violações jurisdicionais denunciadas por ambos os lados. No continente asiático, as ambições da China em reanexar a ilha de Taiwan tornaram-se mais categóricas, incisivas e afirmativas. As hostilidades fronteiriças entre Armênia e Azerbaijão voltaram a recrudescer, mesmo após o acordo que pôs fim à guerra pelo controle de Nagorno-Karabakh. Na África, notadamente na região de Palma, ao norte de Moçambique, o Estado Islâmico retomou as atividades terroristas com a aspiração de dominar áreas ricas em jazidas de petróleo. Também quase verificamos o recomeço da contenda militar na região de Donbass, ao leste da Ucrânia, onde separatistas pró-Rússia tentam fundar a República Popular de Donetsk, capital localizada na Bacia do Rio Donets. No Oriente Médio, os EUA posicionaram embarcações militares com grande capacidade de fogo no Golfo Pérsico pretendendo garantir a posição estratégica em um eventual confronto com o Irã, enquanto Israel deu início à grande escalada bélica contra o Hamas na faixa de Gaza, não vista desde a época das intifadas de 1987. No campo humanitário, novas levas de imigrantes ilegais dirigem-se à Europa na busca por uma vida melhor, como está acontecendo agora no enclave de Ceuta na Espanha. Aqui no Brasil enquanto alcançávamos a marca de 200.000 óbitos por covid-19, assistíamos perplexos ao colapso no sistema de saúde em Manaus.  Poderíamos manter essa narrativa citando outros inúmeros exemplos, envolvendo nações como a China, Estados Unidos, Turquia, Rússia, Índia, Grécia, entre outros. Sem contar o agravamento de conflitos internos, como ocorrem na Argentina, Nicarágua, El Salvador, México, França, Líbia, Síria, Belarus e assim por diante. De certa maneira, o surto virótico trouxe consigo alterações no comportamento psicossocial, deixando-o suscetível à intransigência que produz elemento obstaculizador à construção de diálogos capazes de edificar consensos civilizatórios. Em nosso país, a CPI da covid explora circunstâncias que, no caso de serem comprovadas como verdadeiras, deixariam corado o próprio Josef Mengele. Para concluir, deixo como reflexão a frase de um sujeito conhecido pela alcunha de Albert Einstein que dizia – “O mundo não está ameaçado pelas pessoas más, e sim por aquelas que permitem a maldade”.

* Nilton Cesar Tristão, Cientista Político - Opinião Pesquisa & GovNet