Nilson Regalado - Governo sabia desde janeiro que faltaria arroz

Alerta com base em números do Cepea/USP foi ignorado, e o Brasil continuou exportando altos volumes de arroz

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13 SET 2020Por Da Reportagem07h38
Foto: Antpkr

Nos dias 18 e 19 de janeiro esta coluna alertou, em primeira mão, os leitores da Gazeta de S.Paulo e do Diário do Litoral que em 2020 o Brasil teria à disposição o menor estoque de arroz dos últimos 35 anos. O motivo: exportação recorde em 2019. Mas, o alerta feito com base em números do Cepea/USP foi ignorado pelo Governo Bolsonaro. E o Brasil continuou exportando altos volumes de arroz.

De janeiro a agosto, 983 mil toneladas do grão foram enviadas para mais de cem países, segundo a Secretaria de Comércio Exterior. Isso representou um aumento de 48% em relação ao mesmo período de 2019. Resultado: o preço disparou nos supermercados de Norte a Sul do Brasil por falta do produto. E, desta vez, a culpa não é dos comerciantes.

Diante do desgaste, nesta semana o Governo Bolsonaro resolveu isentar de tarifas alfandegárias 400 mil toneladas de arroz com casca, que serão importadas de países fora da América do Sul. Ou seja, devemos fechar o ano com uma exportação recorde de cerca de 1,5 milhão de toneladas do cereal, mas teremos de buscar 400 mil toneladas de arroz no exterior para suprir o mercado brasileiro. Assim, a crise expôs a barbeiragem das políticas agrícola e econômica do Governo, que mantém o dólar alto para garantir superávits na balança comercial à custa da exportação de alimentos, em prejuízo do consumidor brasileiro.

Animados, fazendeiros devem aumentar em 12% a área destinada ao cereal na safra que será plantada na primavera e colhida no primeiro trimestre de 2021. Nesta semana, até a Ordem dos Advogados do Brasil pediu ao ministro da Economia, Paulo Guedes, para frear as exportações. O Rio Grande do Sul produz 70% do arroz brasileiro.

Prepare o bolso.
A Fundação Getúlio Vargas apurou a maior alta desde 1994 nos preços do atacado neste início de setembro. A prévia do Índice Geral de Preços-Mercado mostrou aceleração de 4,41%. Um dos vilões foi a soja. Em agosto, a mesma prévia da FGV havia apurado alta de 1,46%. O IGP-M é referência para correção dos aluguéis.

Commodity indígena.
Cientistas brasileiros e canadenses usaram infravermelho para identificar dentre 132 variedades de mandioca as mais eficientes em produção de amido. Berço da mandioca, o Brasil fatura menos royalties sobre o amido que a Ásia. A commodity é importante para indústrias de alimentos, papel e papelão. Assim, a nova tecnologia vai facilitar a seleção genética de acordo com a etnovariedade das plantas e ampliar a renda do produtor.

Vinhos sustentáveis.
A região do Alentejo, em Portugal, vai conceder selo inédito a produtores de uva e vinho que agirem de maneira sustentável. A certificação avaliará gestão eficiente do solo, água e fertilizantes, preservação de ecossistemas e uso eficaz da energia, entre outros critérios ambientais. O Brasil é o maior importador dos vinhos alentejanos.

Filosofia do campo:
"A primavera chegará, mesmo que ninguém mais acredite no calendário nem possua jardim para recebê-la". Cecília Meireles (1901-1964), Jornalista carioca, em 'Obra em Prosa'.