Artigo - Terra à vista

A pátria, e não somente o ufanismo, também pode ser o último refúgio do canalha. Afinal, ela é a ilusão daqueles que buscam em meio ao medo e a ignorância uma causa última pelo que morrer!

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12 SET 2021Por Artigo10h10
Diego Monsalvo, professor de filosofia e escritorDiego Monsalvo, professor de filosofia e escritorFoto: DIVULGAÇÃO

Por Diego Monsalvo

Ainda que concorde com o pensamento “o patriotismo é o último refúgio do canalha”, do grande escritor e crítico literário inglês Samuel Johnson (1709-1784), vou mais além. A pátria, e não somente o ufanismo, também pode ser o último refúgio do canalha. Afinal, ela é a ilusão daqueles que buscam em meio ao medo e a ignorância uma causa última pelo que morrer!

É óbvio que sei que vivemos num pedaço de terra localizado num canto qualquer do planeta e coabitado, com maior proximidade, por indivíduos que possuem uma mesma estrutura básica de cultura. 

Todavia, sempre me incomodou a ideia de ter devoção a um país como se isso fora um fator natural, absoluto e revelador de quem se é ou deseja ser e estar.

Para tanto, não apresento nada de novo. ‘Sou apenas um rapaz latino-americano’ que busca entender e acompanhar cada vez mais o raciocínio filosófico dos povos originários da nossa América. Ou ainda, para quem crê (por desconhecimento e/ou pretenso status) que o pensamento começou na Europa, também tenho ali algumas referências, sigo em diálogo com as razões apresentadas por filósofos cínicos e estóicos na questão de pátria, mundo e universo.

Para a maior parte dos povos pré-colombianos, principalmente para os incas e demais grupos andinos, o mundo era/é regido pela pachamama, a mãe terra. Toda a proeza da existência e da gratidão, se dirigia a ela. Já entre os gregos, foram os cínicos e estóicos que sustentaram ideias parecidas. Para Diógenes, o cínico, a cidadania não lhe dava sentido, apelando assim para uma cidadania cósmica. Entre os estóicos, vigorou a ideia do cosmopolitismo, ou seja, não somos filhos da cidade, mas do universo e suas leis (a Cosmópolis). Assim, unidos pela sabedoria universal, a partir de onde estávamos, caminharíamos para uma vida mais plena e harmônica.

Portanto, se de fato somos humanos e ocupamos um lugar no planeta, não é natural, satisfatório e saudável que limitemos nossas vidas a esse acaso espaço-temporal!

Ou lutamos pela preservação, igualdade e justiça da Terra que nesse imenso cosmos coabitamos ou continuaremos a criar barreiras ideológicas e imaginárias que mais levantam muros do que pontes, como sempre nos lembra o incomparável Papa Francisco!

Da minha casa, local de onde inclusive escrevo agora, vivo meu universo em expansão!

* Diego Monsalvo, professor de filosofia e escritor