Artigo - O Doente Imaginário

Desde o início dessa pandemia, vivemos num mundo inimaginável para as artes: palhaços sem picadeiro, músicos sem plateia, escritores sem noite de autógrafos, filmes lançados apenas nos serviços de streaming, teatro sem luzes e palco

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07 SET 2020Por Da Reportagem07h09
Foto: DIVULGAÇÃO

Por Francisco Marcelino

Desde o início dessa pandemia, vivemos num mundo inimaginável para as artes: palhaços sem picadeiro, músicos sem plateia, escritores sem noite de autógrafos, filmes lançados apenas nos serviços de streaming, teatro sem luzes e palco. As mortes e as sequelas provocadas pela Covid-19 doem em todos nós, mas a arte serve para apaziguar um pouco esse sofrimento. Assim, na próxima sexta, dia 11, a Comédie-Française, em Paris, reabre depois de seis meses. Nunca, durante seus três séculos e meio de existência, a companhia ficou tanto tempo fechada. 

Outras companhias francesas retomaram as apresentações durante o verão europeu, mas nada se compara à Comédie-Française. Ela espelha o maior nome do teatro na França: Molière. A Comédie nasceu em 1680 — alguns anos após a morte do autor — da fusão de duas companhias da época. Uma delas era do próprio Molière. Não por menos que Molière é o patrono da Comédie-Française. 
 
O dramaturgo e também ator morreu praticamente no palco interpretando o protagonista de sua última peça, “O Doente Imaginário”, que narra as aventuras de um hipocondríaco. Molière passou mal durante a apresentação, mas acabou morrendo em casa. Nenhum padre foi abençoá-lo. Naquela época, homens de teatro eram menosprezados pela igreja, até mesmo Molière, que era protegido do rei Luís XIV. Claro que a peça tinha que estar na nova temporada, mas a partir do fim de outubro.

O administrador da companhia, Éric Ruf, escreveu no programa desta temporada que o “teatro é um confinamento consentido”. Segundo ele, é uma arte necessária para todos os que querem “testar sua própria química num banho comum”. O teatro, esse “confinamento consentido”, fez muita falta durante o confinamento real que vivemos. 

A companhia reabre com o monólogo “Les Forçats de la Route” (“Os Condenados da Estrada”), que foi criado e é interpretado por Nicolas Lormeau a partir de uma crônica do jornalista francês Albert Londres sobre o Tour de France, a Volta da França, em 1924. Na época, os ciclistas enfrentavam mais de 5 mil quilômetros de estrada, 2 mil a mais do que hoje. Dá para entender o título. Aliás, a encenação acontece justamente quando ciclistas do mundo inteiro disputam as etapas da Volta da França. 

Infelizmente para dramaturgos, atores e atrizes e o público brasileiros, os teatros devem ainda demorar para reabrir em todo o território nacional. Sem contar que a cultura foi abandonada pelo governo da hora. Embora teatro sem palco seja bem parecido com chupar bala com papel, ainda dá para se deliciar com algumas encenações gravadas ou leituras dramáticas. Uma dica para esse feriado de 7 de setembro: Helena Ranaldi e Maria Fernanda Cândido fazem a leitura de “Que os Mortos Enterrem seus Mortos”,  texto inédito de Samir Yazbek.

Francisco Marcelino, escritor e cineasta