Artigo - Licença para matar

O projeto de segurança pública de Bolsonaro se baseia em armar seus seguidores e conceder aos militares uma licença para matar

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06 FEV 2021Por Artigo09h03
Francisco Marcelino, jornalista, escritor e professorFoto: DIVULGAÇÃO

Por Francisco Marcelino

Com o Congresso nas mãos, o mandatário da nação disse que editará três decretos sobre armas na semana que vem. O que conterão? Desde o início do seu mandato, a posse de armas por civis cresceu 65 por cento, segundo reportagem de O Globo de domingo passado. Na visão de Jair Bolsonaro, a população armada é uma garantia para a democracia. Para especialistas em segurança pública, é a receita para explodir a violência doméstica, os acidentes com armas de fogo, ou para que essas armas acabem na mão de bandidos. Só para citar alguns problemas.

No mês passado, em nome dessa mesma democracia proclamada por Bolsonaro, uma legião armada invadiu o Congresso americano e quase deixou o país de joelhos. Não é possível comparar os Estados Unidos com o Brasil no quesito posse de armas por civis, porque por lá também é possível portá-las em público. Ainda não chegamos a isso. Ainda.

Morei nos EUA de 1997 a 2002. Vi de tudo por lá, da explosão da bolha de internet ao 11 de setembro, mas, daquele tempo, uma das coisas que mais guardo na memória era a facilidade para se comprar uma arma e a dificuldade para abrir uma gelada antes do jantar. No 7-Eleven ao lado de casa, quando eu ia comprar uma latinha de cerveja, o vendedor só me vendia a mercadoria após conferir minha identidade. Em Nova York e na maioria dos estados americanos, a idade mínima para comprar qualquer bebida alcoólica é de 21 anos e eu tinha um pouco mais de 30. A 500 metros dali, no "mall" do bairro, com 16 anos já era possível comprar um rifle para caçar urso.

Nessa época começaram os ataques armados a escolas nos EUA. Isso já era comum nos correios, lojas, shoppings. Esses atentados eram (e são) tão comuns que na redação da TV Globo em Nova York, onde eu trabalhava, havia uma regra: noticiar apenas os atentados com mais de 5 vítimas. Mas, em abril de 1999, uma dupla de estudantes armada de fuzis e portando bombas atacou uma escola de segundo grau em Columbine, no estado de Oklahoma. Mataram 13 pessoas e feriram outras 24. Os dois, que se suicidaram, haviam comprado os rifles legalmente. O país das armas ficou em choque, mas nada fez de eficaz para evitar ataques semelhantes.

Além dos decretos sobre armas, Bolsonaro disse que acordou com os novos presidentes da Câmara e do Senado a votação de um projeto que estabelece um excludente de ilicitude para militares que integrarem operações de Garantia da Lei e da Ordem. Esse excludente tornará mais difícil punir militares por eventuais mortes ocorridas durante essas operações.

O projeto de segurança pública de Bolsonaro se baseia em armar seus seguidores e conceder aos militares uma licença para matar. Ou seja, combater a violência com mais violência e, no meio de tudo isso, a população. É fascismo que fala, né?

* Francisco Marcelino, jornalista, escritor e professor