Artigo - Culpa no cartório

Estimulado pela teimosia do nosso líder máximo, o brasileiro mergulha de peito aberto na doença

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30 JAN 2021Por Artigo10h10
Francisco Marcelino, jornalista, escritor e professorFoto: DIVULGAÇÃO

Por Francisco Marcelino

Desde os tempos primordiais, o homem tem culpa no cartório. De clava ou tacape na mão, o homem extirpou espécies, arrebentou a cabeça do inimigo e quebrou a mulher que ousou sorrir para o vizinho de caverna. Nada mudou dos tempos primordiais até aqui. Sempre culpado, de tempos em tempos, esse bípede que ocupa o topo da cadeia alimentar desta Terra resolve se penitenciar por essa culpa que carrega e aproveita também para culpar os outros pelos próprios erros.

Quando a AIDS explodiu na década de 1980, um grupo surgiu como grande culpado de tudo. Assim a doença passou a ser chamada pejorativamente de “peste gay”. Por conta desse apelido, muitos metidos a machões acreditaram não fazer parte do grupo de risco.  A gente sabe qual foi o resultado disso, de acreditar na crença no lugar da ciência. Quase quatro décadas depois, a AIDS ainda mata muita gente no planeta, mas o homem descobriu como atenuar a sua disseminação. Na verdade, percebeu-se que as medidas preventivas são as melhores armas contra o vírus.   

Estimulado pela teimosia do nosso líder máximo, um entre muitos que têm culpa no cartório (embora, vale dizer, a dele seja bem maior do que a de cidadãos normais), o brasileiro mergulha de peito aberto na doença. Aqui e ali, médicos descrevem que estão tratando pacientes que contraíram a Covid-19 depois de uma reunião com 20 pessoas. Grupos marcam festas em motéis, sítios, casas de veraneio; idosos tomam ônibus lotados; muitos defendem o direito de não usar máscara. No auge da epidemia da AIDS, muitos se recusavam a usar preservativo. Mesmo agora, alguns fazem de tudo para não se proteger e proteger a companheira ou companheiro.

Certamente, as esferas municipal, estadual e federal no Amazonas têm muita culpa pelo que acontece por lá. No entanto, no fim de dezembro, o governo do estado revogou um decreto que restringia o comércio por 15 dias após protesto de empresários, vendedores e ambulantes. O decreto era para controlar a explosão de casos de Covid-19. Naquele momento, a taxa de ocupação de leitos clínicos e de UTI já beirava os 100% na rede pública e privada do Amazonas. Ou seja, não dá para culpar apenas os governos. Temos visto que, em geral, o cidadão brasileiro, aquele mesmo que espanca a mulher e explora os empregados, tem culpa no cartório.

Aparentemente, a variante amazonense do vírus é mais contagiosa. Vários casos de reinfecção foram descritos em Manaus. Por isso, as pessoas deveriam redobrar os esforços. A nova cepa já foi detectada em São Paulo, no Japão e nos Estados Unidos, entre outras localidades. Ainda não se sabe se é mais letal. 

O ser humano deveria pular essa fase, a da culpa, e avançar duas casas no tabuleiro do jogo da vida para chegar à casa da responsabilidade.  

Francisco Marcelino, jornalista, escritor e professor