Artigo - Covid-19, a terceira guerra mundial

Depois da pandemia vamos ver filmes e documentários mostrando esses governantes que se posicionaram contra a ciência, inclusive seus seguidores, sendo mostrados como vilões e assassinos

Comentar
Compartilhar
30 SET 2021Por Artigo06h40
Silvio Sebastião Pinto, analista programador e escritorSilvio Sebastião Pinto, analista programador e escritorFoto: DIVULGAÇÃO

Por Silvio Sebastião Pinto

Eu já consigo vislumbrar a pandemia pelo retrovisor da imaginação. Ela ainda não passou, mas já reduziu a marcha e está ficando sem gasolina.

É sabido que toda guerra traz consigo mortes, perdas e desesperança, mas também um leque de novas oportunidades. Quando a vegetação do cerrado é incendiada há uma grande destruição, mas ao derramar de lágrimas das primeiras chuvas toda a paisagem se renova, e a vida se recompõe com lindas cores e novas promessas. 

Vacinas que levavam alguns anos para serem criadas desta vez ficaram prontas em meses. E diferente do que os alarmistas denunciam, não foram feitas com irresponsabilidade e sem critérios, apenas para se ganhar dinheiro; elas foram feitas com maior rapidez porque há promessas de compras de todos os estoques por todos os governos do mundo, porque há mercado pronto para comprar. Sim, a pandemia acelerou muitos processos tecnológicos, e isso tem sido um aspecto bom da desgraça. Nas guerras as pessoas tendem a ser mais criativas para encontrar soluções para sobreviver, e a pandemia do Covid-19 se apresentou à humanidade como uma verdadeira guerra pela sobrevivência. Os investimentos em tecnologias para desenvolvimento de novos fármacos, novos softwares de controle e logística, novos métodos de atendimento e melhores práticas para lidar com catástrofes foram altos na grande maioria dos países.

Carros voadores, internet das coisas, 5G, realidade virtual, criptomoedas, a conquista de Marte, inteligência artificial, metaverso, remédios inovadores, telemedicina... A lista de tecnologias que surgiram ou se intensificaram durante os dois anos de combate intenso à peste do século 21 é imensa. Estamos saindo dela mais fortes e mais preparados.

Mas há um lado sombrio, uma herança torpe que vamos carregar para todo o sempre. Já vi vários filmes e li muitos artigos sobre a segunda guerra mundial, e sempre é trabalhada a questão dos oprimidos e dos opressores. O líder alemão construiu uma verdade e conseguiu vende-la para milhões de pessoas, a partir de um nacionalismo encantador que afagava o orgulho do povo. Numa analogia grosseira Hitler colocou o povo alemão para odiar outros povos, inclusive os judeus, e no combate à pandemia muitos governos puseram seus seguidores para odiar a vacina, inclusive o nosso presidente. Hoje isso pode parecer coisa de simples opinião do tipo “eu prefiro pizza de queijo e você prefere de atum”, mas as guerras nos ensinam que as nossas escolhas, por mais frugais que sejam, projetam consequências muitas vezes devastadoras. 

Os filmes sobre a segunda guerra geralmente mostram algum oficial de alto escalão que seguiu cegamente o líder alemão, acreditando estar fazendo a coisa mais correta do mundo, apesar de suas atitudes não estarem alinhadas com o bom senso e a retidão que pede a alma humana, e assim faziam crueldades inimagináveis. Tudo bem, nenhum membro do governo brasileiro mandou pessoas para a câmara de gás ou campos de trabalho forçado, mas trabalhar contra a criação, a distribuição e o uso da vacina tem o mesmo peso e consequências semelhantes, e isso está sendo escrito nas pedras dos anais da humanidade.

Depois da pandemia vamos ver filmes e documentários mostrando esses governantes que se posicionaram contra a ciência, inclusive seus seguidores, sendo mostrados como vilões e assassinos. Serão comparados aos oficiais alemães cujo desprezo pela vida os tornou cúmplices de uma chacina que poderia ter sido evitada.

Silvio Sebastião Pinto, analista programador e escritor