Artigo - A paz interior

Saber lidar com a 'correria' é o segredo, tal qual o pescador na jangada com o mar bravio

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31 MAI 2021Por Artigo06h40
Diego Monsalvo, professor de filosofia e escritorDiego Monsalvo, professor de filosofia e escritorFoto: DIVULGAÇÃO

Por Diego Monsalvo

Zenão de Cício, um grande filosófo estóico grego dos séculos III e IV a.C, dizia que a felicidade plena estava já na busca da ataraxia, palavra grega que significa imperturbabilidade da alma ou uma apatia frente as paixões que nos levam sempre a desejos e necessidades que mais nos prendem do que libertam. 

Ou seja, feliz seria aquele que, mesmo vivendo num caos e tentando mudar para melhor a atual situação das coisas por meio de atitudes virtuosas, conquistasse a paz de espírito, a paz interior. Mas, o que vem a ser essa paz interior?

A paz interior é a consciência tranquila, sábia e jamais acomodada ou indiferente. Ela é a certeza de que nossas ações, ainda que sob forte pressão do meio social em que vivemos, são autônomas, coerentes com o que pensamos e fazemos e, por fim, verdadeiras. A paz interior não é a calmaria de um dia bom ou a sensação de anestesia mental. Ela é ação lógica, clara e refletida!

Certa vez, tentei demonstrar para um aluno alguns erros objetivos que ele havia cometido em sua prova, ele ouviu, ponderou e não quis as sugestões possíveis para suas respostas, quis antes refazê-la sozinho e usou de uma metáfora cheia de representatividade: Quem pensa com a cabeça dos outros é piolho, professor! Ele tinha toda razão! Ele queria sua consciência vibrante, sua autonomia humana, enfim, a paz interior como resultado daquilo que nasce do "seu saber" no mundo e não mais do "meu" saber do mundo. 

A consciência tranquila permite que as ideias surjam com maior liberdade e maturidade. O indivíduo cria e entende o seu tempo para, de fato, raciocinar, refletir, diagnosticar e compreender o mundo e a si mesmo. Pensar é importante, claro, mas é tão somente colocar em movimento a inteligência; já refletir, raciocinar, é ter a capacidade de analisar e avaliar os prós e os contras das ideias e ações que temos e tomamos frente a nós mesmos e aos outros.

Evitar o estresse não deve ser o objetivo da nossa vida, isso é um erro. O foco é a consciência, isto é, as relações estressantes, os medos, as expectativas e o mundo caótico, sempre existirão, são, inclusive, parte da nossa humana condição, agora, se tivermos em nossa meta a paz de nossa consciência, passaremos com sabedoria por tudo isso. Saber lidar com a 'correria' é o segredo, tal qual o pescador na jangada com o mar bravio. O mar está lá (o estresse, o medo, a expectativa), suas ondas tentam derrubá-lo, mas o que o orienta não é essa situação circunstancial, é o que está à frente, o peixe a ser pescado, a vida que escolheu levar.

* Diego Monsalvo, professor de filosofia e escritor